Sexta-feira, Junho 26, 2009
Palavras.
Eu tenho evitar mas tenho que assumir: sou viciado em palavras. Amo-as de todos os jeitos, de todas as formas que elas podem ser descritas, pintadas ou cantadas. Adoro o jeito que elas podem se desdobrar, se descobrir, se destruir. Palavras feias, palavras grandes, palavras pequenas que dizem muito e palavras que aparentemente não dizem nada. Pode ser palavrão ou até mesmo uma única palavra. Não importa. Eu as devoro. Eu as observo, analiso, disseco como um filólogo a faria. Mas nem sempre interessa-me sua história, sua origem, sua razão social. A mim, o que importa é a escolha. Por que escolheram esta palavra e não aquela? Qual é o sentido que quiseram transmitir ao coloca-la em vez de um sinônimo, em vez de um antônimo, em vez de algo diferente. Vocês já pararam para pensar em como grandes obras da Literatura, da Música, do Cinema e de qualquer outra arte que envolva a palavra seria diferente com leves alterações? Vocês já pararam para degustar uma palavra, pensando em seu ritmo combinado entre vogais e consoantes, dígrafos e sílabas tônicas, criando uma música a cada novo conjunto infinito de sons?
Os números podem não ter fim, mas dependem das palavras para serem descritos, escritos e se tornarem reais em seus conjuntos. As palavras são combináveis, são instrumentos loucos de nossa boca, de nossa capacidade mental, de nosso coração surdo. As palavras podem ser bêbadas, daquelas que tropeçam uma nas outras para chegar em algum lugar ou agitadas como um corredor de maratona; podem ser serenas como a voz da Vanessa da Mata ou gritantes como uma torcida organizada de futebol. Palavras falam, respiram, abençoam, amaldiçoam, criam e matam. Deus disse as primeiras palavras para criar o mundo. E quem criou as palavras que ele disse? Fiat Lux, chevrolet ou qualquer outra designação. Palavras são simplesmente a estrutura espinhal de quase todas as culturas modernas e àqueles que não as organizaram ficaram perdidos em algum momento da História. A palavra empurra o tempo para frente, registra o ontem para ser visto, lido e vivenciado, e é capaz de nos esboçar como será o amanhã. As palavras sutis e afiadas podem envenenar alguém com maior efeito que arsênico, podem iludir mais que uma hipnose ou serem doces o suficiente para despertar em nós sentimentos que movem os corações para o mesmo lado, para a mesma valsa, para sempre. Palavras de grande importância que movem o mundo e palavras ditas em qualquer lugar, por qualquer um, que perpassam a vida pairando no ar, estourando como uma bolha de sabão. Palavras que imitam sons, como o ploc da bolha de sabão mencionada anteriormente e palavras que imitam a vida. Palavras e mais palavras criadas, desenhadas e distorcidas em idiomas diferentes, de todo o mundo, de todo o lugar. Palavras gravadas em uma tábua na Lua mostrando nossa (pseudo)inteligência e superioridade. Palavras estampadas em bandeiras ditando políticas do país e ausência de palavras censuradas em alguma ditadura. Palavras usadas por jovens para protestar e palavras usadas por autoridades para reprimir.
Nós precisamos das palavras e mal percebemos o quanto elas compõem o nosso dia-a-dia, o quanto elas desenham nosso cotidiano. Alguns tem maior habilidade para organiza-las em uma parada comemorativa, com efeito, com capacidade de despertar sensações em quem lê enquanto outros a tratam com maior rispidez, como uma coisa comum e sem especialidade. Isto me entristece. As palavras são tão belas e às vezes tão desprezadas. Quem nunca achou graça em ficar analisando como sobrancelha parece pairar no ar enquanto confim é uma palavra muito engraçada pra dizer algo tão distante não sabe o que é apreciar a arte da palavra. Há quem saiba usar tão bem este instrumento que a palavra vira arma, vira manipulação e destrói mentes mal-estruturadas. Há quem não as use corretamente e diz o que não devia, o que não queria e carrega as marcas das escolhas feitas pra vida toda. Palavras juntas, separadas, com significados ou palavras inventadas no dia-a-dia. Palavras que só existem em tempos específicos, presas por grilhões em passados e palavras que só existem porque nós as inventamos. E já pararam para pensar que teoricamente tudo começou porque uma entidade divina disse palavras para criar e agora nós criamos palavras para nossas próprias invenções? Big-bang, evolução, blog, computador. Quem nunca ficou encucado em separar com-puta-dor e ficar viajando em o que as putas tem a ver com o mundo da informática? Talvez tudo isso seja um grande desvario meu, uma paixão velada e vocabular. Talvez seja loucura, mas as palavras enfeitiçam. Tem quem use-as tão bem que os livros grudam e despertam uma avidez por ler, por chegar ao fim e ver se esta fome de letras some. Tem gente que as coloca tão bonitinhas em fila, com um ritmo em cima que vira música, que os outros dançam, gravam, comercializam e se apropriam da palavra dita. Se há séculos havia trovadores que viviam das palavras ditas para homenagear suas senhoras ilustres e ilusórias, hoje compramos palavras de diferentes significados no super-mercado.
Palavras, palavras, palavras. Conjunto de letras organizado de maneira que faça sentido para quem lê. Palavras que são capazes de distinguir socialmente e culturalmente uma pessoa das demais. Palavras que podem determinar ordens irrevogáveis, ditas para todo o sempre e que nunca mais terão cura. Palavras para sempre, palavras para o fim, palavras para qualquer momento. Palavras que são conjugadas, outras que são sujeitos e algumas simplesmente são inexistentes! Palavras que gravam, que somem, que curam, que machucam. Palavras e mais palavras que emboladas perdem o sentido. Palavras que são nome de programas para escrever mais... palavras! Palavras tão mágicas que até erradas são compreensíveis. Palavras que nos fazem rir, gargalhar e sentir-se bem. São palavras e mais palavras. Palavras para todos os gostos, palavras para todas as cores, religiões, sexos e vontades. Palavras que despertam desejo e palavras que expulsam demônios. Palavras para os deuses, para os outros, para cada um. Palavras para o amor, para o ódio, para suprimir e silenciar. Palavras para mim, para você, para qualquer um. Palavras exclusivas de grupos e palavras que só corações uníssonos entendem (popoca?). Palavras eternas etéreas etílicas. Palavras sem sabor e tão saborosas quanto a vida. Palavras que possuem uma grafia tão feia, como a própria palavra. E que independente disto causa reações sem par. Palavras que arrepiam, que entristecem; palavras que simplesmente tem o poder de nos fazer ser o que somos: humanos.
E responda-me com uma ou mais palavras: como não gostar delas?
veja mais palavras em http://twitter.com/danbarish
Dan Barish escolheu às 1:54 AM Comments:
Terça-feira, Maio 19, 2009
Despedida
A Lit nunca mais voltou.
Lembro claramente a noite em que cheguei radiante e ela já estava de malas prontas, com um sorriso triste estampado e um olhar de derrota em cada íris.
- Onde vai? – perguntei
- Fugir. – a resposta lacônica cortou o céu.
- Não há necessidade. Por favor, fique.
- Ficar? Para quê? Sofrer? – ela respondeu com os olhos marejados
- Você sabe que eu preciso de você.
- Não mais – e começou a andar em direção à porta. As luzes se apagavam concomitante ao seu caminhar, deixando me brilhando só na penumbra.
- Diga ao menos para onde vai – gritei, num misto de alívio e desespero, escutando minha própria voz ecoar no corredor.
- Encontrar outro alguém. Qualquer um. Pode ser a Solidão, a Raiva, o Desespero. Qualquer um.
- Desculpe. Aconteceu quando menos vi, de maneira muito intensa.
- Não há o que desculpar. Sempre imaginei que um dia isto fosse chegar ao fim.
- Isto? Agora é apenas isto? Várias noites em claro, perdendo-se um no outro entre linhas, palavras e histórias de amor vividas no futuro, no presente e no passado?
- Pare de me lembrar. Não me machuque mais... já está doendo o suficiente.
- Também dói ver você partir. Fique. Vamos tomar um drinque, pensar, deixar as letras resolverem isso. Não tome uma decisão assim, sendo irracional.
- Irracional? – ela bradava – Você me acusa de ser irracional enquanto transmite esse brilho insano no olhar? Você tem a capacidade de me acusar enquanto eu ouço daqui a intensidade que o seu coração ousa bater, transgredindo o nosso silêncio sacro? Você me acusa de irracionalidade enquanto mal consegue se concentrar, levando seus pensamentos para ela, para o sorriso, o cabelo liso, o umbigo, cada centímetro de seu corpo e de sua alma que você insiste em relembrar? Você me chama de irracional pois sabe que essa foi a única decisão racional que tomei. Beba você o seu veneno e deixe-me ir.
Ela me conhece bem. Eu vi as letras caídas no caminho que ela percorreu, salpicado por algumas lágrimas e por memórias cravadas em mim. Pela primeira vez em anos as palavras me faltaram. Ela estava cada vez mais perto da porta, a mão dirigindo-se firme à maçaneta e todas as vogais que eu conhecia se embolaram nas consoantes, me engasgaram e nada disse. Ela estava certa. Eu deveria deixa-la ir. Mas era um relacionamento de anos que sentenciava-se apenas como memória; de tudo que vivi, sonhei, menti e escrevi. Minha vida. Minhas mortes. Frustrações e alegrias transcritas que viravam fragmentos de eternidade finita, presa ao que um dia sequer existiu ou deixou de existir. Senti um vazio repentino e quando achei a coragem ela já tinha ido.
A Esperança saiu de trás da cortina, tentando me convencer de que a Lit voltaria, mas eu já não acreditava nela há anos. Enxotei-a pela mesma porta em que a Lit se foi e entristeci-me por alguns segundos.
Então percebi que ela realmente estava certa. Quando o vento bateu, a porta fechou e o tempo correu, eu já estava pensando naquele sorriso lindo que eu acabava de ver, tanto ao vivo como gravado em mim; lembrei-me daquele corpo a qual me enchia de um desejo louco o suficiente para enfrentar tudo o que fosse preciso; lembrei da alegria que eu sinto ao pensar nela, ao estar com ela e ao planejar o amanhã ao lado dela. A Lit estava certa. Meu coração havia perdido espaço. Talvez eu não tivesse me dado conta mas quando percebi já a amava. Amor daquele enferrujado, que eu não sentia mais, que parecia conto de fada, mas que quando vi, olhando-a tão bela deitada ao meu lado, sabia que a Lit teria que desaparecer. O Amor trouxera sua bagagem, mobília e até animal de estimação, sem se preocupar com nada e melhor, fazendo com que eu deixasse de me preocupar. Esse sentimento extraordinário engasgado em mim, querendo ser verbalizado a todo instante. E quando verbalizei, sentindo-o fluir de maneira tão verdadeira, percebi o que a Lit sempre soube: não havia mais necessidade de escrever. O sentir e o falar já eram suficientes para transmitir minha alegria e acalmar minha alma. A Lit teria que ir embora.
E ela realmente foi.
De vez em quando recebo um cartão. Nunca há o endereço ou qualquer pista. A Lit não manda achando que a procurarei; não escreve para não nutrir esperanças de tal ato. Ela diz estar bem e que encontrou outro. Eu torço para ser verdade. Guardo o cartão com os outros em uma caixinha, permito-me um minuto de comiseração própria e quando menos vejo, já estou sorrindo pensando no meu Amor.
A Lit teve que ir para que eu pudesse ser literalmente feliz.
PS: www.twitter.com/danbarish --> ainda descobrindo o que é =)
Dan Barish escolheu às 10:02 PM Comments:
Segunda-feira, Abril 27, 2009
Silêncios.
Já fazia um tempo que eu havia desacostumado a chegar em casa escutando de longe os latidos do meu cachorro. O Tempo o pegou de jeito e ele foi, gradativamente, perdendo o entusiasmo que ele demonstrava sempre que alguém abria um portão, um carro passava ou o caminhão do gás. Acredito que não era surdez e sim apenas um certo enfado pela vida. Infelizmente o Tempo também me atingiu e eu já não tinha mais tanto tempo livre pra correr atrás dele como fazia há doze, treze, quatorze anos; eu não pedia mais para ele arrancar o ralinho do quintal e trazer pela boca, para fúria da minha mãe que insistia em cimentar o ralo no corredor do quintal. Para mim, meu cachorro tornara-se tão adulto quanto eu e nosso contato tornou-se parco. Talvez se ele possuísse um Buddy Poke no Orkut eu seria mais próximo, e isso agora me faz sentir realmente mal por tudo.
Eu lembro, uma das poucas memórias da minha vida infanto-juvenil, de ir compra-lo. Não lembro o bairro, mas lembro claramente que era escuro. A casa era grande, branca, com um quintal enorme onde uma Pastora-Belga de nome Jade morava com seu dono. Jade tivera somente dois filhos; um todo preto, conforme a característica da raça e um outro, segundo o criador, "com um defeito genético": havia uma manchinha branca no peito, fugindo do padrão negro tradicional da raça. Ele nos propôs um desconto neste com a manchinha, alegou que a mancha sumiria com o Tempo mas meu pai pediu que eu e meu irmão escolhesse independente do preço - tempos áureos. Eu lembro claramente de me abaixar, fazer um pst pst tosco com a mão para ver qual dos dois viria brincar comigo. O "defeituoso" veio, com 45 dias de vida, tropeçando nas próprias patas mal-acostumadas a andar e eu o peguei. Não houve dúvidas. Era ele.
Quando chegamos em casa eufóricos por causa do cachorro, minha mãe fez uma pergunta crucial:
- Ele é pequeno?
Nós o mostramos. Ele estava dentro de um engradado de refrigerante e não conseguia sequer sair dali. Minha casa, recém-comprada, estava cheia com meus primos que corriam pelo quintal e ele olhava, tão pequenino, de dentro do engradado curioso, soltando ganidos que eram um simples eufemismo para um latido bravo. Minha mãe ficou feliz. O cão era cãozinho, tinha uma manchinha branca no peito e parecia amigável. Questionou a mim e a meu irmão:
- Qual será o nome?
- Mancha! - respondeu alguém cuja a memória não me faz lembrar. O nome pegou. Ele passou a ser o Mancha e a viver nesta casa que é hoje, um símbolo de mudança da minha vida. Tudo isso aconteceu há mais ou menos treze anos. Tempo este que meu maior problema na vida era ter que acordar 11 horas para ir a escola, mas antes lavar o quintal e brincar com o Mancha. Bons tempos que agora definitivamente não voltam mais.
Nem preciso dizer que minha mãe ficou emputecida alguns meses depois ao perceber que o Mancha não ficaria com aqueles poucos centímetros pra sempre. Mas quem resistia àquele cachorro que comia moscas deitado, que corria de medo quando minha mãe levantava o chinelo e que morria de medo de água? Ninguém. Meu primo, com seus cinco, seis anos, colocava ração dentro da boca dele e dava risadas altas ao ver que o Mancha não fazia nada. Ele era um cachorro divertido. Pulava, adorava destruir as pipas que caíam no quintal e era meio tarado por pano de prato velho. Morreu hoje, causa desconhecida, sem nunca ter conhecido uma fêmea mas feliz.
Eu não estava presente. Contudo os relatos e a minha imaginação fazem com que minha mente divague na tristeza ao ver que uma parte da minha vida simplesmente se foi. Imagino ele embalado num saco preto, carregado pelos responsáveis pela Zoonose, com a língua possivelmente de fora e deixando de existir fisicamente. Aquele cachorro, que aguentava com toda a paciência do mundo minhas histórias sem pé nem cabeça aos 10 anos de idade, que era viciado em borda de pizza ao ponto de não deixar ninguém dormir arranhando as janelas, hoje passa a ser apenas uma memória. Doce. Cortante. Memória das boas. Por mais imbecil que possa soar, eu queria ter afagado a manchinha branca de seu peito que nunca sumiu mais uma vez e dizer adeus. Talvez até pedir desculpas por estar distante. E contar mais uma história como se eu tivesse novamente dez anos.
Mas o Tempo também me pegou de jeito e só cheguei a tempo de sentir o cheiro forte no quintal e a ausência daquele cachorro preguiçoso, mas que era uma parte de mim, deitado no portão.
Agora é definitivamente o silêncio quem mora no quintal.
PS: sim, diarinho.
Dan Barish escolheu às 10:50 PM Comments:
Segunda-feira, Março 09, 2009
Deus e o Sexo
Nota do Autor: este texto é uma continuação do excelente texto herético intitulado Deus e o Clitóris; em tal pérola literária, o autor desvendou um dos maiores mistérios humanos não-citados no Gênesis: como o Todo-Poderoso decidiu a forma de reprodução humana.
Novamente as nuvens estavam cheias de anjos planando. Ainda que na eternidade o tempo não faça nenhuma diferença, as fofocas nos corredores permaneciam ativas desde a última vez em que o Todo-Poderoso se reuniu para apresentar algo aos anjos. Alguns, mesmo sabendo que Ele podia ouvir tudo, comentavam que a ideia do Anjo Banido era interessante e aparentemente deliciosa. Sempre que algum comentário deste gênero aparecia nos Céus, Ele se retorcia no seu trono e tosses oportunas ecoavam, enquanto as conversas de corredor se dissipavam. O Projeto Homem estava pronto mas Deus sabia que o método de reprodução pelo apêndice seria doloroso e podia colocar tudo em fracasso. Por isso decidiu reunir os anjos e apelar para algo que tinha inventado na última vez que fora ao banheiro: o voto popular.
Obviamente todos os que tinham se proclamado favoráveis ao Anjo Banido não tiveram direito a voto, incluindo o próprio Lúcifer - o sufrágio universal não havia alcançado os céus. Assim, Deus pensou que como só teriam anjos favoráveis a ele, a elite ganharia e ele teria o argumento eterno que reprodução pelo apêndice é muito mais legal que sexo.
Os anjos se calaram quando o Todo-Poderoso planou pelas nuvens e subiu ao palanque, de frente a um símbolo que futuramente ficaria conhecido como a Águia dos EUA, mas qualquer semelhança é mera coincidência.
- Anjos Queridos. Acredito com razão pois tudo sei que ainda há ressentimentos entre nós devido à última vez em que nos reunimos, quando apresentei-vos o Projeto Homem e discutimos o sistema de reprodução do mesmo.
- Uhu! Sex...! – gritou um anjo rapidamente sufocado pela repressão que o impediu de completar o último o. Deus pigarreou e retomou:
- O Anjo Banido propôs um sistema que aparentemente fará mais sucesso do que explodir os mini-homens através do apêndice, e, portanto, iremos fazer uma votação. Meu filho irá recolher os votos. Cada um deve escrever se prefere A) Apêndice – a idéia de Deus, o Todo-Poderoso ou B) Sexo – a idéia do Anjo Banido.
- Tem que escrever tudo isso mesmo? – perguntou um anjo loiro.
- Óbvio que não. Que merda, como é difícil saber de tudo enquanto estes seres não sabem de nada – murmurou Deus baixinho.
- O que o Senhor disse?
- Eu não disse nada – disse com uma vozinha fina, o Menino-Jesus.
- Silêncio! – bradou Deus – Escrevam A ou B e entreguem para Jesus. Rapidamente os anjos votaram. Naquele momento havia aproximadamente cem anjos que votavam na melhor ideia de reprodução humana. O Todo-Poderoso também votou e entregou para o Menino-Jesus. Após alguns segundos inúteis, a votação se encerrou. Deus já sabia o resultado:
- Atenção. O resultado foi: Dois mil setecentos e três votos para o Apêndice e setenta para o Sexo.
- Peraí. Nós somos cem. Como temos tantos votos?
- Ahhhh Jesus! Você multiplicou os votos de novo filho?
- Foi sem querer Papai! Eu não consigo me controlar – disse o Menino chorando.
- Vá brincar com os peixinhos! Vamos refazer a votação de uma maneira mais simples. O voto será aberto. Vão para a direita quem for a favor do Apêndice e para a esquerda quem for a favor do sexo. – Deus, sem perceber, havia criado a condição política de Direita e Esquerda antes mesmo da Revolução Francesa. Os anjos voaram de um lado para o outro e se organizaram.
- Muito bem. Levante a mão quem for a favor do Apêndice.
Um barulho cortando o ar se fez e Deus contou as mãos.
- Ok. Agora quem for a favor do Sexo.
Novamente os anjos levantaram a mão.
- Hummm. 55 votos a favor do Apêndice. 45 votos a favor do Sexo.
- Opaaaa! Deu contraste! Vamos refazer essa plenária – gritou outro anjo.
- Ah São Tomás! Fique quieto.
- Uuuhhh ditador, ditador, ditador – começou a gritar a multidão.
- Isso aqui tá mais divertido do que a futura destruição de Sodoma e Gomorra – comentou um anjo.
- Nem me fale! Uhhh ditador!
- Ok, ok! – disse complacente o Todo-Poderoso – Vamos refazer a votação. Quem for a favor do Apêndice fique sentado, quem for a favor do Sexo fique em pé.
Os anjos se organizaram e Deus contou novamente:
- Ok. 30 votos para o Apêndice e 70 para o Sexo!
- Aeeeeeeeee. Sexo! Sexo! Eu quero um S, eu quero um E – gritava a multidão de anjos que estavam à esquerda comemorando a vitória do sexo. Deus olhou o Menino-Jesus, que nesta altura da história já estava com cinco mil peixinhos e bufou de raiva, pois seu plano havia falhado. Nem mesmo com seu voto triplo ele havia burlado a eleição. Ele pensou no futuro da humanidade, realizando sexo constantemente e sabia que tinha que ter algum insight, uma ideia que salvasse todos do caos e do prazer maravilhoso. Ele não podia deixar a ideia de Lúcifer se perpetuar assim. De repente Ele sorriu. Os anjos engoliram a seco, pois da última vez em que Ele sorrira, os Dinossauros deixaram de existir:
- Muito bem, muito bem. A vitória foi justa. Alguém tem alguma pergunta antes de Eu oficializar o resultado?
- Eu tenho Senhor!
- É pra mim Papai? – gritou o Menino-Jesus.
- Não!
- Que saco ter o mesmo apelido que seu pai – e o Menino voltou a brincar com os dez mil peixinhos que agora lutavam para nadar no vinho.
- Qual é a pergunta?
- Deus, o que é sexo anal que picharam no banheiro da terceira nuvem? – e os anjos riram alto. Deus, pra evitar mais polêmicas, disse:
- É o sexo feito apenas uma vez por ano. E chega! Sem mais perguntas. A votação foi justa e o homem fará sexo para se reproduzir. Com uma condição: ele terá que...
- Ihhh esse cara é um estraga-prazeres mesmo. – disse um anjo que misteriosamente foi atingido por um raio.
- Ele terá que participar de algo chamado Matrimônio.
- O que é isso Deus?
- É uma condição legal, onde ele assinará um documento, jurando fidelidade e amor eterno a mulher cujo homem queira se reproduzir.
- Ahhh. O homem vai poder se casar com várias mulheres Deus?
- Não. Só com uma.
Houve um silêncio na multidão de anjos. Uns olhavam para os outros com cara de “ué”, mas a decepção era nítida. Um ou dois segundos se passaram quando, em uníssono, ouviu se um brado que ecoou até o Éden:
- Impeachment já!
PS: ainda assim o autor deste texto é a favor do casamento.
Dan Barish escolheu às 1:37 AM Comments:
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009
Vodka & Raiva¹
Eu cheguei com o coração acelerado. Uma parte de mim dizia que eu não deveria ter vindo, que não adiantava tentar me controlar ou me esforçar, pois com certeza tudo seria em vão. Meu peito doía como se eu tivesse rolado vários e vários degraus da escada, um exagero óbvio, mas uma metáfora boa para descrever como me senti quando você virou as costas e me deixou. Sei que havia motivos pois não é fácil me agüentar. Mas porra, não precisava me machucar desse jeito. Olho pra essa balada sentindo uma raiva crescer, procurando algo que eu não quero ver. Algo que eu sei que irá doer pois no futuro irá me lembrar o quanto fui cruel e inconseqüente. Com você. Comigo. Com quem for preciso. Foda-se. O que importa é o hoje e o amanhã que fique amarrado ao tempo.
As bebidas rolam soltas e eu as seguro. Um copo de vodka para esfriar os ânimos e embriagar a fúria. Outro pra aliviar a dor. E mais um, só pra fechar a trinca. Vários jovens dançam ao som que sai forte das caixas, sem qualquer tipo de preocupação; olho para outros que buscam suas próximas vítimas, talvez para brincar com seus sentimentos assim como eu aparentemente brinquei com os seus. Alguns casais se formam durante as músicas e se encerram com o piscar de olhos. E os mais afortunados somem nos cantos escuros, nos becos sórdidos entre um copo caído e uma garrafa quebrada. É justamente esse o caminho que eu sigo, procurando-a para resolver essa ausência de ponto final. Eu preciso por esse maldito ponto pra tirar toda essa parte podre de dentro de mim. Enquanto caminho pego mais vodka e vou tomando, deixando a bebida gelada percorrer meu corpo acendendo sensações que deveriam ficar caladas. O perigo dá um sinal e a adrenalina dispara. Eu percebo que alguma merda vai acontecer assim que sinto a visão embaçar levemente com a vodka incessante e meus passos se tornarem mais difíceis. Pisco forte para colocar as coisas de volta aos eixos pois preciso achar quem procuro. E não saio daqui até ter tudo isso resolvido.
De repente tudo acontece como um filme, rápido demais para prestar atenção e sensacional em demasia para ser válido. Ela estava em um canto, apoiada na parede enquanto ele a puxava para bem perto do corpo, dando-lhe beijos no pescoço. No pescoço que até horas atrás era meu. Meu. Andei jogando a garrafa no chão, sem me importar com qualquer conseqüência e o puxei pelo braço com força. Ele foi pego de surpresa então aproveitei esta vantagem: dei uma cabeçada em seu nariz e senti alguma coisa trincar. Ponto positivo. Ele reagiu rápido, ou eu que estava lento devido à vodka, mas seu soco pegou na minha cara e mal senti. Viva a anestesia Orloff. Dei-lhe outro soco, dessa vez na boca do estômago e um na cara. Forte. Senti minha mão canalizar toda aquela fúria e jubilei quando o vi cuspindo um dente embolado em sangue, baba e saliva, sendo segurado por algumas pessoas da balada. Foi então que a vi, olhando indignada, como se sentisse repulsa do meu ato. Ela abriu a boca pra me dizer:
- Que merda é essa? Ele não tinha nada a ver!
- Foda-se. Ao menos eu descarreguei a minha raiva e nem foi em você.
- E você acha que isso vai resolver o quê? Você acha que eu vou voltar pra você agora?
- Cala a boca. Eu sei que não mereço mais nada de você, mas a dor é grande ao ver alguém que a gente gosta com outra pessoa.
- Isso é razão pra fazer tudo isso? Pra socar um cara, partir pra agressão?
- Pra mim é.
- Seu bêbado nojento!
- Não, não. Eu agredi sim, mas foi só um detalhe se eu bebi.
- Quantas vodkas você tomou? Quantas?!
- A culpada não é a vodka, é você que me fez de idiota e me apunhalou pelas costas! - eu sentia a raiva diluindo junto com o efeito do álcool. Senti o cheiro de merda e precisava dar um jeito nisso.
- Nós não estamos mais juntos! Entenda isso!
- Eu que preciso que você entenda!
- Entender o que?
- Que você é ainda a minha tetéia, que eu fiz tudo isso por amor!
- E existe amor em fúria?
- Por você existe! - as pessoas que me seguravam deixaram-me em paz enquanto levavam o babaca que bati para longe.
- Essa foi a pior cagada que você já fez!
- Desculpe se eu te assustei, com certeza você nunca me viu assim.
- E não queria ter visto.
- É que vodka e raiva é uma mistura muito ruim. Eu me descontrolei. Eu errei.
- Só isso não basta! - ela disse e eu não sabia o que fazer. O que diabos ela queria de mim para voltar?
- Quer saber? Eu até que me diverti socando esse bosta.
- Foda-se! Some da minha vida!
- Eu sei que não mereço mais nada de você. O meu rancor foi maior do que eu então não tive saída.
- Não quero saber! Alguém tira esse cara daqui.
- Ahhh! Quem sabe um dia você não vai me agradecer?
- Agradecer? Agradecer por você ter socado meu amigo na balada?
- Amigo? Há! Eu ainda vou pagar pra ver no que isso vai dar.
- Segurança! Segurança! Tirem esse puto daqui.
- Esqueça. Não precisa, eu vou embora. Foi ruim eu sei, mas já passou. Ficar com você foi bom, mas eu estava bêbado, louco, chapado e agora acabou.
Eu ainda sentia seu olhar fixo às minhas costas enquanto eu caminhava para a saída. Alguns caras me olhavam assustados, outros riam de toda a situação. Pra mim nada valia. Minha fúria tinha sido suavizada e falei o que precisava pra acabar com tudo isso.
Sem qualquer tipo de dúvida, pontos finais são realmente uma merda.
¹ -Texto inspiradíssimo na música Amor em Fúria da excelente banda nacional Vivendo do Ócio
Dan Barish escolheu às 12:13 AM Comments:
Terça-feira, Fevereiro 03, 2009
Vezes.
Às vezes as borboletas tomam meu estômago sem razão aparente, como se a moldura onde elas estão presas sumisse e elas pudessem voar livres, como um dia foram, sem se preocupar com meus ácidos gástricos, com as feridas causadas pelo excesso de Coca-Cola e Whopper´s, como se a vida fosse só isso: voar entre um alimento em digestão e outro.
Às vezes minha visão embaça, perde o foco, como se houvesse lágrimas chegando ao limite, olhando para baixo decidindo colocar ou não um fim em suas vidas; como se minha alma, presa em tantos grilhões, se esticasse ao máximo para olhar pelas janelas e ter um vislumbre da vida, da liberdade, da emoção. Nesses momentos sinto que há uma confusão etérea dentro de mim, onde o sentido se perde comigo, com todos, como se algo transcendental de repente tocasse a música, movesse os longos dedos frios sobre o piano, batendo em várias teclas ao mesmo tempo num som ora furioso, ora sereno.
Às vezes tenho a impressão que alguém vem e aperta o interruptor, tirando todas as cores do que assisto sem a minha autorização, deixando-me na penumbra, no mundo preto-e-branco onde tudo tem tons de cinza. Eu, você quem lê e o cafezinho ali de cima. Nessa cena pálida procuro olhar o que deveria ter cor, o que diabos está faltando? Não me importa quem apagou. Só me importa quem pinte tudo de novo.
Às vezes tenho a sensação de que a Solidão é o nosso último suspiro antes do fim. Seja ele morte, rompimento, demissão ou qualquer outra coisa que simbolize o término de um período. O que me assusta é ter a sensação de que a Solidão está ao meu lado sempre, pronta pra ceder o ombro em momentos de agonia e outras horas preparada para me assustar, apontar para a minha cara de espanto e rir gostoso, como uma amiga de longa data faria. O que realmente me terrifica é pensar que a Solidão pode ser minha melhor amiga. Isso não assusta vocês? Acordar um dia e descobrir-se completamente só? Silêncio. Sua respiração. Seu batimento cardíaco. Um ou outro passarinho cantando lá fora, um carro passando na madrugada, um despertador distante martelando seu som. E você. Peça única num quadro, num mosaico, num quebra-cabeça onde tudo se perdeu. A vida se esvai, você suspira, aquela última lágrima se joga gritando alto o que não podemos ouvir e se espatifa em sua bochecha. Aquela sensação úmida lhe dá algo para pensar, algo para reviver, algo para sonhar. Uma maneira de conforto, de colocar a Solidão para longe e sentir-se acompanhado pelas memórias, lembranças, erros e escolhas feitas na vida. Até que alguém lhe fecha as pálpebras e aí é só você novamente por toda a eternidade. Só.
Às vezes tenho a impressão que tudo irá acabar num piscar de olhos; que meu mundo irá ruir no meu próximo passo, que não haverá apoio ou mãos para segurar, apenas a queda, o abismo do desenho animado que levanta uma nuvenzinha de poeira e deixa um contorno na pedra. Apogeu e declínio. Ascensão e queda. Início e fim emaranhados numa constante inconseqüente que liga um ao outro ao infinito. E nada além.
Às vezes acredito que seja só isso. Amor, algumas amizades, outras conquistas profissionais, um ou dois bons livros pra se ter na cabeceira e uma par de discos pra tocar em alguns eventos. Talvez um bom gole de Coca pra encharcar uma borboleta e a garganta seca.
Às vezes eu alço os olhos aos céus e escuto risadas embebidas em sarcasmo, do mais fino tipo, como se tudo isso realmente fizesse parte de algo maior, algo incompreensível e que deixamos de querer compreender há muito tempo; como se por trás do cenário de algodão no céu azul, nos pontos brilhantes da escuridão, olhos focassem nesses momentos onde às vezes tudo e nada são lados de uma mesma moeda girando e girando e girando.....
Às vezes eu escrevo pra não erodir. Para retirar letra por letra da angústia jungiana que assombra os literatos. Tem vez que eu leio pra me machucar, procurando interpretações subliminares em algo que deveria ser positivo, como se a dor me empurrasse novamente aos braços da felicidade. Doce e amargo, doce e amargo unidos para um realçar o sabor do outro confundindo-nos constantemente sobre qual gostamos mais. Letras doces, parágrafos amargos, frases saborosas e textos difíceis de engolir. A Literatura tempera esses momentos ocos como se esse conjunto de representações pudesse trazer algum sentido àquilo que não conseguimos sentir, trazer ou representar.
Às vezes eu penso na Vida, outras horas ela pensa em mim. Nesse vai-e-vem a gente se equilibra, dança e ri, tropeça e ri de novo. Eu queria controlá-la, mas ela escapa dos meus braços como uma dama fugaz, que sabe o fascínio que causa mas recusa a se entregar. Assim como eu.
Às vezes alguém lê esse monte de palavras acumuladas e faz um diagnóstico flácido, insalubre e insosso. Como se todo texto dissesse algo que o autor tentou esconder. Como se todo autor quisesse dizer algo. Vai saber se ele não quer que você pense nisso? Pode ser que ele tenha feito todo esse preâmbulo triste pra lhe levar ao clímax romântico. Ou não. Tem vez que eu manipulo. Outras sou manipulado. E provavelmente há muito mais manipulações nesse jogo que eu nem percebo!
Às vezes a gente só quer escrever pra poder mostrar o caminho seguro às borboletas que voam no ambiente inóspito; só pra mostrar ao nosso íntimo que o mundo continua assustador demais pra sair e que é melhor cada lágrima ficar no seu lugar, pois a bochecha, ainda que tentadora e cheia de adrenalina, pode colocar um fim em sua gotícula. Tem letra que surge só pra pintar o que foi apagado, trazendo cores novas à vida, com uma pincelada impressionista, outra surreal e algumas bem art noveau. Como não entendo nada disso apenas vivo com cada cor que posso, conheço e admiro. Outros textos surgem só pra mostrar que a Solidão é tema de inspiração. E só. Não diz mais nada.
Às vezes só a sensação de encher esta tela branca, estas linhas torpes, são o suficiente pra apaziguar o peito e diminuir a saudade, eliminar o medo, domar a ansiedade e varrer pra debaixo do tapete toda sensação ruim.
Mas há solução. Sempre:
Há vezes em que tudo isso perde o sentido: quando vejo um sorriso de quem amo, quando dou risada de um amigo dizendo ser tipo o Martinho da Vila ou colando chicletes em velhas grossas no cinema.
Quando quem eu amo se entrega a mim, permitindo que o amor seja algo enérgico, que alimente sonhos belos o suficiente para corrermos em busca do amanhã e que mostre a Solidão que nada disso pesa diante de um abraço apertado enquanto ela ri e me chama de “meu”.
Quando sinto seus braços finos me envolvendo, trazendo-me para perto enquanto seu cabelo me faz cócegas no nariz e tudo ali me dá vontade de ser pra sempre. Torço pra que tirem uma foto, pintem um quadro ou escrevam a respeito pra que um dia, quando minhas memórias forem insuficientes, eu possa sentir novamente todo esse jorro de alegria que sinto toda vez em que a tenho por perto. E não há nada que sobreponha esse sentimento: texto, bebida, passeio, nada. O mundo só faz sentido completo quando sua cabeça está sob meu peito, quando sua respiração termina no meu ouvido e você dorme em paz, mostrando-me a felicidade a despeito de todas essas vezes em que o mundo parece um lugar ruim.
O melhor de tudo é que quanto mais ficamos juntos, mais meu mundo se colore, menos borboletas voam dentro de mim, menos a Solidão me acompanha.
São essas vezes que fazem a vida valer a pena, onde o amor não tem vergonha de existir e tudo se resume em poucas palavras: sonhos, planos, futuro, felicidade constante, romance, desejo, carinho, abraço, risada.........
Ou seja, eu e você.
Juntos por infinitas outras vezes.
PS: um abraço pra sentir-se abraçada mais uma vez.
Dan Barish escolheu às 1:58 AM Comments:
Domingo, Janeiro 25, 2009
Literatura on the rocks
A Literatura me conquistou há muito tempo. A conheci numa noite só, como hoje, como ontem, como sempre e infelizmente, como amanhã. Eu estava em um bar. A mesa do canto, tradicional, já com o formato do meu traseiro na cadeira; o copo suado, com gotículas de gelo evaporado, tristeza escorrida e lágrimas que desciam sem pudor. Eu já era um mascote do bar e não me importava. Pra quê se importar? Importância era algo que já havia sido perdido. O que me restava era pensar no passado, remoê-lo constantemente, cutucando cada ferida de uma maneira masoquista, como se eu gostasse de sofrer. A verdade é que nem o álcool nem a dor preenchiam o vazio que ficou. E eu estava cansado de procurar o que colocar nas lacunas, nessas malditas covas abertas onde meu peito morto dava cada vez mais o seu último suspiro. Eu estava lá, sentado de novo, noite após noite, olhando as beldades que se debruçavam no balcão, pedindo drinks com nomes gringos e eu no bom e velho Jack Daniels. Nas primeiras noites eu ainda recebia alguns olhares curiosos, outros interessados. Dizem que há fantasias de todos os tipos e aqui devemos incluir, entre animais, objetos inanimados, as pessoas derrotadas.
Uma certa vez, uma loura platinada, Loreal, Kellaton e farmácia, seios fartos pulando do sutiã número três vezes menor do que devia, se ofereceu para me dar alegria. Sim, isso foi um eufemismo porco, mas é o que restou. Eufemismos pra falar de sexo, pra falar de dor, pra falar de perda, pra falar de mim. Eu virei um eufemismo nesse bar. Olhei nos olhos da loura e vi um reflexo – provavelmente era da lente barata, mas e daí? Vi a mim mesmo morrendo lentamente em agonia, um corpo putrefato segurando um copo, sentado rastreando o bar com um olhar perdido. Tive dó de mim. Ela beijou meu pescoço, afagou minha coxa em busca de mais e eu apenas refutei, com asco, cuspindo na escarradeira no canto do bar enquanto ela levantava gritando contra mim. Dei mais um gole, brinquei com o gelo e senti a noite esquentar, mais uma vez me lembrando que o inferno é aqui. E contrariando todas as previsões religiosas, só eu estava nele. Maldito Hades.
Mas eu falava da Literatura. Desculpem, é difícil escrever alcoolizado. Os temas se misturam, as linhas dançam diante de mim e o passado surge a cada piscada, com escárnio, refletindo as minhas escolhas erradas e diminuindo as que pareciam certas. Pra ver se eu consigo organizar as palavras tomo mais um gole. Pra refrescar a memória, o calor, a culpa. A Literatura. É verdade. Vamos falar dela pra suavizar a dor.
Eu nem a vi entrar. Estava encarando o fundo do copo, chegando a algum ápice do saber inútil, da solitude completa quando reparei que alguém havia sentado à mesa. Nas últimas vezes em que isso aconteceu eu mal levantei o olhar para ver quem era. Já tinha aberto mão da vida. Não fazia mais questão e nem questionava mais. Porém algo me chamou a atenção: ela falava francês. Não é todo dia que uma francesa gasta seu tempo falando com um bêbado qualquer. Eu tentei me lembrar das aulas na faculdade, ainda no tempo jovial, no tempo em que era tolo o suficiente pra acreditar no Amor e em suas conseqüências; no tempo em que microondas não tinha hífen e o português brasileiro tinha seu gingado próprio, com palavras sambistas e músicas ruins. Mas ela me olhava com curiosidade. Com desejo. Com um quê de loucura no ar, no sorriso lupino diante da presa ali parada, trôpega, sem vontade de viver. Ela sorria como se houvesse encontrado o reino de Preste João, a cidade de El Dorado ou a Cocanha. Eu a olhava como... como se ela se balançasse constantemente mas acredito ser efeito do Jack. Falando nisso, mais uma dose por favor. Hã? Sim, on the rocks. Rock´s! Rock and roll, álcool e Literatura. Pode por isso na minha lápide.
Foco. Desculpem. Retomando.
As palavras deixaram de se embolar na minha garganta e falei meu francês arrastado, trombando no efeito da bebida. A Literatura riu. Pode me chamar de Lit, se quiser. Eu não queria. Pra mim seria Senhora Literatura até o fim, até o momento em que ela se entediasse de mim como todas as outras antes dela; como todas as outras depois dela. Ela falava rápido, com o olhar fixo no meu para ver se eu a entendia. Eu encarava seu olhar hipnotizante, dando meus goles encarando aquele brilho. Eu ri quando finalmente consegui entender o que diabos ela propunha. C´est impossible falei. E ela levou o indicador aos lábios, meus lábios, sorrindo novamente como se eu fosse uma criança tola. Eu era apenas um bêbado falido, largado, de coração esmigalhado pela Vida. Eu era amante do copo, do álcool, do bar. Já devia estar fedendo; os amigos estavam longe; os amores perto, apenas na lembrança mas constantemente perto demais para me machucar sempre em que eu tentava sonhar, caído, babando e com o gosto de bile na boca. E ela disse que faria tudo isso sumir. Ela disse que era possível mudar. Veja o Obama, por exemplo. Ela era visionária, vanguardista, sensual. Ou eu estava bêbado, já não recordo mais; mas apostaria na última alternativa. Adiante. Ela me conquistou obviamente. Suas palavras fáceis, vastas, cultas; suas promessas de trazê-la de volta, de preencher os vazios, ressuscitar os mortos, curar as feridas. Ela era meu Messias. Naquela noite amarga, inóspita, quase fundei uma religião, mas não havia fé. Havia fel, mas misturei na bebida e tomei de um gole só. Estou pronto, falei. Ela me mandou fechar os olhos. Fechei. Afinal, eu sempre confio em uma mulher bonita, ainda mais estando bêbado.
Quando eu os abri, ela não estava mais lá.
O bar inteiro olhava pra mim, com aquele teor de pena carregado em seus olhares. Escutei murmúrios soprando que o perdedor havia atingido à loucura, falando sozinho, gritando e bebendo de novo.
Levantei-me aos berros. Onde ela está? ONDE ELA ESTÁ? O Jack Daniels disse pra eu continuar andando, pedi mais uma dose bem-grata, tomei e fui atrás dela.
Naquele dia não a encontrei. Voltei ao bar, bebi mais, bebi mais, bebi mais um pouco, bebi até apagar, até o copo soltar da minha mão comemorando sua liberdade de minha opressão, sentindo minha baba descer lentamente pelo canto da boca enquanto meus olhos lentamente perdiam o foco.
Quando acordei ela estava ao meu lado. Falou que me encontrou no bar, em um estado lastimável e que cuidaria de mim. Acariciando meu rosto, beijou a minha testa e me mostrou um mundo onde era possível tudo. Até eleger o Obama. Disse que se não houvesse felicidade, que eu a escrevesse; que se a dor fosse crônica, eu ficasse apenas com a crônica. Disse que se houvesse vazios, eu os enchesse de letras, palavras, frases perdidas para trazer o que se foi. Ela me mostrou algo pra acreditar. Ela me deu aquilo que eu havia perdido há tempos. Vida. Mais do que isso, vontade de viver. Eu pedi um whisky, uma vodka, mas ela me deu livros para ler e páginas em branco para desafogar os pensamentos. Obviamente me apaixonei por tudo. Por ela, por essa chance, por esse resgate. Por ter me salvado de mim mesmo.
Foram anos felizes.
Ilusórios, mas felizes. Como o amor, com letra minúscula mesmo – é, a Lit me ensinou as diferenças.
E como toda mulher linda, ela recuperou meu coração, colou caco por caco, me mostrou, atiçou a minha vontade e o despedaçou enquanto eu olhava. Os fragmentos caíram em câmera lenta, entre seus dedos pintados de vermelho, entre minhas gotas de sangue, entre a minha vida.
Agora eu voltei ao bar. Mais uma dose por favor, está difícil chegar no final. Obrigado. Eu podia odiá-la, mas ela me deu uma companhia para as noites de solitude. Agora eu não sou o bêbado perdedor, abandonado, só. Evoluí. Viva Darwin, evoluí. Ainda sem ser o mais forte. Mas agora eu sou apontado como o escritor bêbado abandonado, o cara do caderninho amarrotado. Estou melhorando na escala social. Ela me ensinou a criar personagens pra enganar solidão; me ensinou a transformar o amargor em frases amargas, tirando-o de mim e jogando no seu universo; ela me ensinou a regurgitar a felicidade em letras para que os outros a conheçam enquanto eu apenas tenho saudade. Ela me salvou ao mesmo tempo em que me condenava a isso para sempre, como se escrever fosse trazer meu coração de volta. Obrigado Lit.
Eu até podia culpá-la, mas fui eu, apenas eu, quem escolhi acreditar. E infelizmente, é tudo uma questão de escolha.
PS: e viva 2009.
Dan Barish escolheu às 4:24 AM Comments:
Domingo, Dezembro 14, 2008
Minhas Melhores Amantes
De todas as amantes que tive, de todas as mulheres que partilhei o colchão e o lençol, de todas as deusas que vi e tive o privilégio de fazer sorrir, não tenho dúvidas que a Literatura figura como a mais ciumenta. A Solidão é versátil, liberal, fogosa e libidinosa. Nem lembro mais quantas noites varei em um ménage a trois selvagem envolvendo estas duas fontes de prazer de minha vida. Embora tenha sido penoso convencer a Lit - apelido carinhoso - ela se rendeu aos encantos naturais da Sol - outro apelido carinhoso - e desafiamos os céus, o tempo e a razão ao nos entregar a carícias íntimas, toques inspiradores e momentos de arrancar o fôlego. Inúmeras foram as noites que acordei suado, buscando o escasso ar que me fora sugado enquanto elas respiravam em paz ao meu lado, permitindo que eu encontrasse o melhor de mim, calmo e vendo o quão prazerosa a vida é, pode e deve ser.
A Solidão é a única exceção que a Lit permite. Talvez por nós termos crescidos juntos, vendo as mudanças físicas e espirituais de cada um, haja este convívio pacífico. Agora quando escapo desse mundo surreal e tenho contatos palpáveis, carnais e deliciosamente alegres, ambas se retiram de cena. A Sol se esconde, tira suas merecidas férias em algum país europeu - sua terra de origem - e parece me esquecer. Ocasionalmente manda um cartão-postal fazendo questão de demonstrar o quanto está feliz e que não sente a minha falta, esperando, do seu íntimo, que isto seja recíproco. A Solidão entende que quando minha cama está preenchida por alguém diferente, não há espaço para ela. Mesmo assim ainda sorri, pega sua mala e se entrega à outros contextos. Ahhh, quem me dera se a Lit fosse assim tão compreensível! Eu ficaria menos preocupado com esta grande amiga se ela fosse igualmente tolerante e não exigisse tanto de mim. Ela, assim como a Sol, sabe do tamanho do meu amor por elas; o problema é que ela não aceita dividir sua parcela com mais ninguém. Ninguém. Basta eu chegar em casa com um sorriso bobo estampado no rosto que ela já bate os armários, a porta do quarto e se tranca no escuro, comovida em lágrimas, em silêncio, como se minha felicidade a fizesse algum mal. A Sol simplesmente pergunta o que aconteceu e já começa a fazer as malas. Ela nunca leva muita coisa, pois sabe que sua volta é breve, quando o espaço da minha cama voltar a ser grande demais só para mim. Mas a Lit, minha pobre Lit, se recusa a aceitar; grita quando eu bato à porta, tentando me explicar. A Sol vai consolá-la e já escutei diversas vezes, entre um soluço e outro, ela dizer com a voz embargada: “Mas e se agora for para sempre? E se ele tiver encontrado a sua metade? E se ele não... precisar mais de mim?”, geralmente esta última parte é dita já em tom de choro, com lágrimas incontidas escorrendo sem culpa, sem pressa, sem querer. A Lit é romântica. Minhas desculpas não são aceitas, sequer são escutadas. A carranca expressa na face da Lit é como a de um amigo traído, que viu a amizade esfacelar em um estalar de dedos, recusando-se a ver a alegria alheia, ao amor que surge, imaturo, com dente de leite, precisando de proteção. Para a Literatura é inaceitável que outra pessoa escute minhas lamurias, minhas aflições, meus medos. Ela é minha psicóloga registrada, com horário sempre disponível. E na primeira oportunidade, eu a abandono.
Pode soar egoísmo, eu sei. Estou ciente da minha culpa. A Lit sempre esteve com a mão estendida, pronta pra me tirar de qualquer poço a qualquer momento. Até mesmo quando a Solidão discutia comigo, a Lit apartava a briga, me dava colo e fazia cafuné, dando início a uma relação que sem dúvida culminaria em um orgasmo literário de grande intensidade. A Lit me amou quando me senti desprezado, quando minhas escolhas demonstraram ser erradas – como a maioria deste ano -, quando até a Solidão enjoou de mim. A Literatura sempre esteve presente, fazendo-me desabar e desabafar entre seus espaços brancos, suas linhas retas, permitindo-me molhá-la com minha tinta e deixar marcas para sempre, tatuagens infinitas de textos, palavras e frases que o tempo teve que engolir a seco. Aposto que você está se perguntando: como alguém pode abandonar tal amizade? Dói meu peito deixar de lado tamanho apoio, mas há uma razão. A Lit me dá paz por um preço alto: ela exige tanto de minha atenção que não resta nada, nem para mim. Fico em paz e só. Não há alegria, felicidade, romance, nada. A Lit as expulsa com o rolo de macarrão, e no máximo, se não estiver de TPM, permite um abraço efusivo da Solidão. Mas olhando no relógio pra ver quanto tempo dura...
A pergunta que lhe atormenta agora, caro leitor, é a que também me aflige: vale a pena sacrificar todo esse apoio para correr riscos de sentir coisas diferentes, inclusive sensações ruins? É uma escolha árdua. Durante meses escolhi a Lit, afinal, ela não me traía, estava sempre por perto, fácil, sem dor de cabeça e fiel. Algumas vezes surpreendentemente romântica, outras mais sensuais, de arrancar a roupa com o dente e me jogar na cama. Era bom. As noites voavam, o coração se recuperava...mas aí seu primo chato, o Tédio, veio para uma visita e não quis mais sair. Eu tentei, gritei, tentei de novo mas não houve jeito. Disse, portanto, após tantas reclamações: se ele não sai, saio eu. Bati a porta e corri.
E foi justamente nessa caminhada com rumo ignorado que resolvi adotar uma nova estratégia: ir atrás daquelas sensações imersas na lembrança, aparentemente tão boas, e colocar um fim no marasmo feito de cotidiano. Pensei, e julgo-me com razão, que amigo de verdade tem que saber perdoar, especialmente loucuras que envolvem o coração. Nem preciso dizer o quanto este último ficou contente com a possibilidade de uma nova aventura enquanto eu torcia para minhas amantes me entenderem.
Bom, nem preciso dizer como foi a reação da Lit ao atender a campainha, e ver pelo olho mágico, o meu sorriso bobo característico desses momentos fugazes. Ela nem se preocupou em abrir a porta, quem abriu foi a Solidão, já com as malas em mãos, rumo a mais um descanso merecido. Entrei na casa e escutei, detrás da porta trancada, os soluços indignados da Lit, murmurando palavras entrecortadas: “Como ele fez isso comigo, como?”
Eu deixei um buquê de flores com um cartão agradecendo o apoio dado neste ano turbulento, os prazeres ofegantes em conjunto e a paz de cada problema. Coloquei mais um bilhetinho escrito: “Lit e Sol, amo vocês, Feliz Ano Novo!” na geladeira, preso com um imã de solzinho.
E fui embora, com o sorriso bobo ainda perdurando, saborear 2009.
Vejo vocês lá.
PS: =)
Dan Barish escolheu às 1:39 AM Comments:
Sábado, Novembro 15, 2008
Natal 2.0
Não há dúvidas que o capitalismo e o mundo globalizado de cunho ocidental aceleraram a nossa concepção socioeconômica de tempo. As horas valem cada vez menos e passam cada vez mais rápido. Antigamente anos duravam décadas e agora o próprio conceito "ano" está meio desacreditado no mercado temporal. Ele mal inicia e logo vem o Carnaval, a Páscoa, as Festas Juninas, as Férias Julinas, o dia dos Pais, o das Crianças, o Natal e tudo recomeça. Pior ainda: tais festividades começam cada vez mais cedo. E é engraçado que enquanto o calendário perde seu significado de longa duração, os feriados e seus respectivos símbolos permanecem intocados por essa erosão acelerada. Ainda que a Globeleza não sambe mais para chamar-nos a atenção do Carnaval, os demais símbolos festivos parecem sobreviver intactos nesse avanço moderno e faminto do tempo. Os santos de Junho permanecem iguais, as Mães, os Pais, as Crianças... todos recebem o mesmo enfoque. Eles apenas chegam mais rápido, só isso.
Após esta introdução, aliada ao fato que me irrita profundamente mal chegarmos em novembro e já encarar a cidade repleta de enfeites de Natal, resolvi propor uma revitalização do Natal. E para isso, ataco o cerne da festividade, a imagem perpetuada desde a nossa infância. Proponho a análise e reformulação do bom velhinho, do Papai Noel à luz da sociedade contemporânea.
Provavelmente ao ler as duas palavras - Papai Noel - automaticamente seu cérebro evocou a imagem daquele velhinho clássico da Coca-Cola e seu significado. Roupas vermelhas, barba comprida e branca, Pólo Norte, barrigão, duendes como assistentes, cartas e mais cartas, trenós, um saco de brinquedos e renas com nomes esquisitos. Os mais pervertidos podem ter lembrado também da Mamãe Noel, com sua sainha vermelha curta. Ou não. Enfim, tal imagem reflete um ideário da sociedade capitalista de teor norte-americano profundamente enraizado no mundo. Contudo, com uma análise crítica, é possível perceber que essa imagem perdeu completamente o sentido nos dias atuais. Até a famigerada (e deliciosa) Coca-Cola tem apostado mais no urso polar do que no bom velhinho. E como ele não tempo pra ter dois empregos, vamos ajudá-lo e evitar gastos com a Previdência.
Este kit natalino vermelho-branco-barba-gordura está fora de moda. A onda agora é contra o sedentarismo e o Papai Noel é uma figura que evoca o sedentarismo, afinal, ele passa o ano todo sentado, lendo cartas, mandando nos duendes e comendo o biscoito da Mamãe Noel. A barba cresce, a barriga também, ele resmunga mais, os duendes se estressam com a pressão, a Mamãe Noel não agüenta mais assar biscoito e ele literalmente passa o ano só coçando o saco. Vamos mudar isso! Agora o velhinho tem que ser ativo e sim, aqui se inclui sacanagens de todos os tipos. O bom velhinho, logo de início, deve começar a tomar viagra com dois objetivos: agradar a patroa Noel e perder calorias. Isso vai refletir diretamente no seu bom-humor, deixando o ambiente de trabalho mais descontraído e aumentando a produtividade dos duendes. Num segundo momento, o velhinho irá perceber que com aquela barriga, fica difícil amanteigar o biscoito da Mamãe Noel e vai malhar, cuidar da aparência, aparar a barba e se tornar um velhinho sexy estilo o Sean Connery.
Posterior a essa embelezação, é necessário rever toda a logística do Natal. Cartas escritas por crianças que dizem ser boazinhas? Nada disso! Não se pode confiar nos correios - sempre há a ameaça de greve -, papel elimina árvores e o custo de cada selo e envelope pode ser revertido para uma ONG! Multipliquem o custo envolvido nisso por cada criança no mundo? É grana para caralh*. Inclusive eu sugiro a Ong Escritores Pobretões, a qual eu dirijo e garanto a honestidade. Mas deixando de lado a ONG, é necessário informatizar o Natal. Estamos na era da tecnologia 3G, Wi-Fi, Videoconferência e tantos outros recursos. Está na hora de montarmos a primeira central de atendimento exclusiva do Natal, disponível o ano todo e vinte quatro horas. Terceirizada, é óbvio. Assim pagaremos salários mais baixos do que os pagos atualmente aos duendes e aumentaremos a eficiência. Imagine que ótimo você ligar no 0800-2512 e ouvir:
“Hohoho. Bem-Vindo a Central de Atendimento Natalina. Sua ligação é muito importante para nós.
Aperte 1 para ditar sua cartinha ao Papai Noel.
2 para reclamar do seu presente de anos anteriores
3 para saber os nomes das renas;
4 para informar perda ou roubo do seu presente.
5 para falar com nossos duendes. "
Aí você aperta qualquer opção e vem a pergunta fatídica:
“Mas você foi uma boa criança?
Aperte 1 para sim;
2 para não, mas quero ganhar presente porr*! (um piii, na verdade)
3 para sim, só que não de acordo com a opinião dos meus pais;
4 para não, mas mereço um presente pela sinceridade.
5 para saber o nome das renas;
6 para saber a receita do biscoito amanteigado da Mamãe Noel
7 para falar com um de nossos duendes
8 para falar com o Papai Noel".
Você inocentemente aperta a opção sete e fica escutando Jingle Bells durante minutos intermináveis até que você ouve: “Hohoho. Nossos duendes estão todos ocupados nesse momento, ligue mais tarde!" . Pior ainda. A criança, empolgada, vai e aperta a opção oito, esperando falar com o velhinho e ele responde: "O Papai Noel não pode lhe atender agora hohoho. Afinal, alguém tem que mandar nesses duendes inúteis, certo criançada?"
E o stress infantil vai lááááá para cima.
Outra prática que deve ser revista e será atenuada após a revitalização sexual do bom velhinho, é a famosa e criminosa frase dita por Papais Noéis de Shopping: "Senta aqui no colinho do velhinho que eu te dou um pirulito". Se essa frase fosse dita em Neverland, por exemplo, pronto, é batata, lá vai o Michael responder mais e mais processos. Agora processar o bom velhinho ninguém tem coragem. Anos e anos realizando propostas duvidosas e indecentes a milhares de crianças inocentes e ninguém faz nada. Pior: tem pai, sádico, que ainda fotografa o momento para aterrorizar ainda mais a criança pelo resto da vida. Ao menos foi que disse o meu amigo Victor Hugo. Tsc tsc tsc.
Devemos também repensar a relação trabalhista com os duendes. Há anos eles trabalham com fabricação de brinquedos diversificados sem receber férias ou décimo terceiro. Para evitar qualquer processo por um duende insatisfeito e qualquer aumento de custo da empresa natalina, devemos substituir o vínculo empregatício por contratos de estágio. Simples. A relação de exploração escravista permanece e não há mais espaço legal para qualquer reclamação trabalhista! Sem contar que os duendes nunca crescem, ou seja, podem fazer estágio para sempre!
Existem outros pontos a serem abordados - por que não um Papai Noel latino-americano, lo Papito Noel? - ou a possível publicação da edição de dezembro da Playboy ser estampada por ninguém mais, ninguém menos que a Mamãe Noel na capa, mas devemos deixar isso de lado e pensar no melhor de tudo, principalmente aos desafetos do Natal como eu. Todo esse estereótipo natalino está prestes a acabar graças ao aquecimento global! Lembrem que as calotas polares estão derretendo e já foi dito nos bastidores do governo Lula que caso o bom velinho sobreviva, ele se mudará ao Brasil para trabalhar como funcionário público, mandando tudo às favas logo no início de dezembro e emendando as festividades com janeiro e fevereiro. Só será possível encontrá-lo no desfile das escolas de samba, em cima do carro elétrico só de gorro e sunga, sambando com seus duendes que empurram o carro elétrico, enquanto ele olha admirado, Mamãe Noel como porta-bandeira da escola em questão. Então meus caros leitores, será o fim do Natal.
E o início do Grande Carnaval.
PS: sim, eu antecipei o texto já que anteciparam as decorações !
Dan Barish escolheu às 9:15 PM Comments:
Sábado, Novembro 08, 2008
Eu, A Dançarina do Ventre e as crianças.
Eu ainda não estava acostumado com esta quantidade de barulho em meu apartamento. Durante muito tempo ele foi o meu lugar de repouso, de silêncio, aquele momento para sentir-se só e encontrar-se mais. Fiquei segurando as chaves por alguns minutos, escutando do lado de fora a batalha que parecia ser travada lá dentro. Alguns nomes comuns ao meu ouvido podiam ser reconhecidos, sendo clamados com raiva. Desfrutei mais um pouco da paz que o corredor oferecia antes de entrar no meu apartamento, neste templo sagrado que finalmente descobriu e me ensinou o sentido da palavra lar.
Coloquei a chave na fechadura, click, e o som lá dentro automaticamente cessou. Alguns risinhos baixos ainda eram perceptíveis e aquela vozinha frágil amoleceu meu coração de mármore, perguntando suavemente com medo de não estragar a surpresa:
- É o papai? - perguntou meu filho.
- Lógico. Você acha que o entregador de pizza tem as chaves? - respondeu prontamente Sophia demonstrando o quão forte é a genética.
- Shhhhh - sussurrou a voz que me acompanhava há anos. Eu podia até imaginar parte da cena. Sophia e Júlio escondidos em algum lugar e ela, linda, colocando os dedos nos lábios para simbolizar o silêncio. Provavelmente com os cabelos loiros ondulados caindo pelos ombros, o piercing de argola no nariz e uma vontade louca de sair dali, de longe dos filhos, para encontrar um pouco de sossego na ponta de um cigarro enquanto eu cuidava das crianças.
Abri a porta fingindo não saber de nada e ensaiando uma resposta ao possível "buuuh" que fariam para me assustar. Não tive tempo de acordar deste fingimento quando fui acertado na cara por uma almofada. Em cheio. Só escutei o Yes! da Sophia e vi um vislumbre de seus cabelos louros se escondendo atrás do sofá, deixando apenas os olhos castanho-escuros contrastando com a pele duplamente branca. Eu já conseguia ler seu semblante pelo seu olhar e sabia que ela estava radiante, exalando o bom humor ácido que tinha.
- Vem mamãe, se esconde comigo. - falou Sophia por trás do sofá; a Dançarina do Ventre a acompanhou rindo descaradamente da minha face surpresa.
Senti um puxão na perna esquerda e quando olhei Júlio olhava com aquela carinha de pidão.
- Papai, papai. Meninos contra meninas! É nós contra elas!!!
- Somos nós Júlio.
- Foi o que eu disse. - e correu para trás da poltrona para pegar uma almofada. Eu o segui e gritei:
- Só não vale acertar a Scarlet - esse era o nome da nossa TV - nem o Tucídides - esse era o cachorro que de rabo entre as pernas olhava com uma cara suspeita para seus donos.
A guerra começou desleal com a dupla feminina atirando seus projéteis por cima. O bombardeio foi intenso e instintivamente cobri o pequeno Júlio com o corpo. Ele achou graça e me empurrou dizendo: “Sai de cima papai" e disparou atrás da irmã, munido de uma almofada maior que ele. Era engraçado vê-lo caminhar segurando a almofada e eles se encontraram perto dos pufes, se rodeando para ver quem escapava do outro. Aproveitei este momento de impasse para beijar minha esposa. Foi justamente neste breve momento que o choro de Júlio cortou a batalha, meu coração e a atenção e Sophia gritou declarando-se vencedora da guerra. Ponto para as meninas. A Dançarina do Ventre foi até lá, abraçou Júlio e sinalizou com o olhar para que eu repreendesse Sophia - uma tarefa praticamente impossível. Como brigar com aquela mini-adulta com cara de anjo? Olhei para o rosto vermelho de Júlio e encontrei as forças necessárias:
- Soph, você está proibida de comprar livros esse mês! - anunciei seu castigo tentando segurar o riso; obtive sucesso.
- Ah pai que injusto! Se eu não ler nada esse mês não vou ficar inteligente e você vai se lembrar disso quando eu entregar o boleto da minha faculdade! - disse sorrindo. Era duro ouvir isso de uma criança de oito anos, mas as coisas estão mais rápidas hoje em dia do que na minha época.
- Então peça desculpas!
- Eu não tenho culpa se o Júlio é fraquinho.
- Fraquinho não! Papai disse que eu sou estreito, que nem ele! - falou entre uma lágrima e outra.
- É, ele não tem culpa de ter herdado a disposição física do pai. Dê graças a Deus por ter puxado sua mãe Soph.
Ela riu e desculpou-se. Mas mesmo assim estava satisfeita com a vitória conquistada.
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Chegou a hora de colocá-los para dormir e era a minha vez. Enquanto a Dançarina do Ventre arrumava a nossa cama, fui até o quarto das crianças iniciar o ritual.
- Pai, conte-nos uma história para dormir? - pediu Júlio.
- Só não vale falar de novo da Cocanha!
- Nem de quando você apresentou seu seminário de terno-e-gravata, eu não agüento mais!
- Conta uma história nova - falou Sophia.
- Alguma sugestão? - perguntei
- Conte-nos sobre como você e a mamãe se conheceram.
- Isso, isso! - confirmou Júlio em seu pijama cheio de hieróglifos egípcios.
- Ok. Uma vez fui a um barzinho com os amigos da faculdade.
- Como chamava?
- Os meus amigos?
- Nãããão, pai. O barzinho.
- Pra quê você quer saber filha? Você não tem idade para ir lá e quando tiver eu vou te amarrar no pé da mesa! - Júlio riu gostoso, mesmo sem entender direito.
- Fala logo!
- Grão-Vizir. Era aniversário do Marcelo e ele escolheu o ambiente. A temática do lugar era toda inspirada no Oriente Médio, árabe sabe? Cheio de comidas diferentes, música típica e tudo mais. O lugar era meio mal-iluminado de propósito, pra criar um clima legal. Conversa vai, kibe cru vem, o tempo passa e o anfitrião pediu silêncio pois...
- O que é anfitrião? - perguntou Júlio - Se tiver algo semelhante ao agrião eu não vou gostar papai.
- Anfitrião é quem organiza e recepciona as pessoas numa festa, por exemplo. Entendeu?
- Yep!
- Ok. Voltando. No silêncio que surgiu escutamos o chacoalhar de alguns badulaques e todos procuraram a origem dos sons. Lembrem que o barzinho estava escuro. De repente várias garotas lindas entraram, trajando véus e roupas árabes e iniciaram uma apresentação de dança do ventre. Os homens babavam. Logo começaram a comentar baixinho enquanto eu não conseguia tirar os olhos de uma loirinha com dois piercings no umbigo e uma tatuagem de borboleta. Eu estava hipnotizado pela dança. Meus amigos me cutucavam mas eu não percebia. Eu queria decifrar seu olhar, seu sorriso, chamar sua atenção de algum modo. Aí eu resolvi... Ahhh, vocês já dormiram - murmurei baixinho enquanto cobria cada um com cobertores e beijos na testa. - Amo vocês. - e saí do quarto, apagando a luz. Encostei a porta e fui caminhando ao quarto sendo afogado por memórias que me levaram até aqui. Como se o passado me empurrasse ao presente, abri a porta do quarto e sorri com o que eu vi, pois o futuro era bom.
- Ouvi você contando nossa história para as crianças e achei que você gostaria de relembrar os velhos tempos. - falou a Dançarina do Ventre sorrindo. Ainda que ela gerou dois filhos, continuava estonteante. A pele branquinha, a tatuagem que me levava à loucura, o corpo pequeno e tentador. Ela estava com os trajes usados no passado onde se apresentava por amor à dança e agora dançava para fazermos amor. Tudo isso parecia sonho, ficção ou literatura e tal impressão só dissipou-se quando, já na ação, escutei a frase que me trouxe a realidade, dita entre uma respiração cortada e ofegante:
- Cuidado para não acordar as crianças.
PS: a série continua, mas com coisas diferentes!
Dan Barish escolheu às 1:45 AM Comments:
Sábado, Novembro 01, 2008
Identidade.
É estranho começar a pensar num debate historiográfico corriqueiro enquanto espero a sorte me sorrir trazendo meu ônibus, nessa fria madrugada em plena Rua Augusta. Emos, indies, rockabillys, alternativos, prostitutas, travestis, pessoas pseudo-descoladas e deslocadas passam por mim sem me perceber, sem sequer dedicar um ou dois segundos ao ser parado no ponto que dança ouvindo Adele. Pudera, estou camuflado. Ainda que de maneira mais discreta, há possibilidades que alguém me confunda com um deles. Meu cabelo está bagunçado, meio Strokes; a camiseta é do Pulp Fiction, com a Uma Thurman estampada; no pé, o all star vermelho e o rock´n roll alto no ouvido. The Young Knives toca seu ritmo dançante, substituindo a suavidade da Adele e eu me balanço conforme a melodia. É justamente aqui onde eu deveria estar, subindo a rua atrás de uma balada pois meus gostos se encaixam; e eu me pergunto: será? O debate mencionado acima se refere à questão da identidade versus alteridade. Um lance interessante das ciências humana: só é possível afirmar uma identidade quando esta é confrontada com outra, surgindo as semelhanças e divergências que a delimitam como elemento ou conjunto de identificação perante um grupo ou classe social. Será este mundo das baladas alternativas, do rock dançante com sotaque britânico suficiente pra me ressuscitar?
Beldades desfilam, o vento frio assopra e a solidão me abraça. Olho cada loira linda, vestida para provocar com trajes curtos e sapatos altos, ouço o Rocknova cantar dizendo que é muito mais fácil fingir a dor do que a alegria - eu concordo plenamente. Será que ao se jogar nesse mundo escuro de luzes que piscam, no álcool fácil e drogas sortidas, além da promiscuidade resultante desta equação, vou encontrar o lugar onde vou poder fingir a alegria com facilidade, como todos fazem? Será que ao permitir meus tímpanos serem martelados pelo som novo do Kaiser Chiefs em intensos decibéis, ao entorpecer minha mente com algo químico mais perigoso que Fanta Uva, vou conseguir deixar de ouvir as vozes que me acusam e as lembranças que gritam agoniadas? Será que preciso mergulhar nessa loucura transviada da juventude moderna pra substituir, ou melhor, preencher as lacunas que sobraram em mim? Será que nesse embate de identidades eu descubro onde me encaixo? Devo me inebriar em algo que não seja um perfume feminino ou em uma cama quente noite adentro sem medir conseqüências? Será isso a solução ou mais problemas?
Engraçado que olho para todas as pessoas que passam enquanto procuro respostas para as perguntas que ainda virão, vendo fantasmas do amanhã e buscando fragmentos essenciais para eu voltar a olhar no espelho sem ver um sorriso de escárnio no reflexo. Sem culpa, arrependimento ou remorso. Voltar a olhar e sorrir, sabendo que eu vou encontrar tudo o que eu preciso, sabendo que tudo passou e eu me reencontrei. Sabendo que você definitivamente se foi...
Essa vida boêmia regada à baladas e sem limites está longe de ser algo para me resgatar ou um simulacro do que perdi. Sei que é possível esquecer de tudo, deixar de se preocupar, procurar ou sofrer enquanto se entrega à diversão descompromissada e inconseqüente. Simplesmente fechar os olhos, dançar, fumar, beber, cair e levantar com uma puta dor de cabeça no dia seguinte e os problemas no mesmo lugar. A solidão ainda acenando, o passado rindo e o futuro cada vez mais longe. Meus dias e noites são preciosos demais para eu fingir que estou vivendo intensamente ao viver assim. Estupidamente. Desculpem-me os baladeiros de plantão, mas há muito mais na vida do que as noites fátuas que se apagam e precisam ser renovadas cada vez mais rápido. Cada vez mais forte. Cada vez mais, mais, mais mais e quando se vê, o abismo é grande demais pra construir qualquer ponte que traga de volta. Minha identidade até pode se confundir com os rockers de plástico que transitam nessa rua nefasta e meu coração palpita por uma ou outra loira linda que passa, afinal, todos nós temos fraquezas. Mas definitivamente não sou um deles. Não vejo nem sinto prazer em se perder a cada noite com amigos e estranhos que não estarão presentes no amanhã, quando precisar - salvo os que freqüentarem a mesma clínica de reabilitação.
Desculpem a simplicidade, a chatice e a velhice precoce, mas meu prazer se encontra nas risadas altas e alheias causadas em vocês quando eu falo minhas besteiras e divirto-lhes, seja no trem, no ônibus, no meio da aula, em qualquer momento ou lugar; meu prazer se encontra na admiração refletida em olhos quando alguém lê um texto meu; num jantar com os amigos, na leitura de um bom livro noite adentro, num copo de Coca-cola ou de Schwepps Citrus com limão, num Whopper Duplo do Burguer King, na loucura de jogar jogo da velha com um bêbado filósofo no ônibus, na cama com uma mulher insana, na História, na Literatura, na dança casual no ponto de ônibus, na música constante e na calmaria dos meus aposentos. Tenho os meus vícios, minhas loucuras comedidas e tantas histórias pra contar sem me destruir. Memórias para lembrar, amores para viver, sonhos para conquistar, mulheres para se apaixonar, o futuro todo pra desafiar e para alegria – ou será tristeza? - de vocês, textos a escrever.
PS: sim, eu ganhei do bêbado!
Dan Barish escolheu às 2:24 AM Comments:
Terça-feira, Outubro 28, 2008
O Historiador
Poucas pessoas sabem mas os historiadores, seja proto, pré, pós, doutor ou vendedor de dog, são recatados. A própria academia - este termo em si já é tosco - o transforma em um ser intelectualmente desenvolvido, mas impedido por regras medievais de exercer este intelecto em outros campos da cultura. O mais triste é que o inverso é válido, estimulado e comercializado. Se um historiador resolver fazer a história da Física Quântica, os físicos o execrarão, pois ele não entende do assunto; os historiadores, seus próprios colegas de academia, vão torcer o nariz, pois é uma história fora da História, com agá maiúsculo. Agora, se um jornalista resolve escrever um livro falando dos cem anos da chegada da Família Real no Brasil, ele faz sucesso, seu livro vende que nem água de coco em show de axé, ele é idolatrado por conseguir transformar a história chata e burocrática em algo fácil de ser lido; os historiadores torcem o nariz ao escutar o nome da obra, mas no fundo no fundo, sentem inveja, em graus diferentes de intensidade, do sucesso alcançado. Os historiadores representam uma classe intelectual amargurada e amada somente pelos livros, um ou outro aluno puxa-saco e a bibliotecária. Nada mais.
O historiador nunca vai ser famoso. Ele não possui aptidão social, pois é criado pra ler e ler milhares de livros e criticá-los. Só criticar. Não é convidado para as festinhas das socialites no Rio de Janeiro já que vai meter o pau na organização, no vestido, nos salgadinhos e vai suspirar clamando pelo tempo dos bailes de Dona Maria, a louca, pois lá podia tudo. O historiador só é convidado a escrever para um jornal, comentando uma obra ou um filme, quando não acharam mais ninguém disposto a tempo. O historiador, reclinado em sua poltrona, cercado de livros que ele leu pelo puro prazer de criticar, anseia por uma ligação da editora X, Y ou Z, pedindo um comentário, pedindo a opinião para publicar naquela revista muito interessante. O telefone toca. Ele atende. Se identifica. Cita os títulos, os pós-doutorados feitos na França, diz estar à disposição e quando escuta o tema da matéria, ri e se recusa a comentar, com um tom ofendido. Como se aquele tema fosse superficial demais para que ele cedesse gotas do seu saber ilustrado, afinal foram anos de pesquisa sobre a importância das maçanetas na corte de Luís III. O jornalista desliga, entra no Wikipedia, publica a revista, sai pro happy hour com os amigos e mesmo assim tem milhares de leitores. O historiador desliga, liga para outro historiador, comenta a questão da revista e ambos dão risadinhas curtas, encerrando logo a ligação, pois têm muito que ler.
Outra vontade reprimida do historiador é algo proibido no próprio Evangelho. Pecaminoso. Eles ensinam isto logo no primeiro momento que você pisa na academia. Se pudessem tatuar em sua testa tatuariam. O tal do anacronismo. É, o termo é meio estranho. O conceito até que é bem sacado: você não pode pensar o passado com idéias do presente. Exemplo corriqueiro, se você disser em um corredor do Departamento de História: "Alexandre, o Grande era gay!"... Pronto, anacronismo! O alarme toca, a KGB aparece e te leva para uma sala escura - e o que acontece lá, senhoras e senhores, não sabemos pois ninguém voltou para contar. Portanto nunca, em hipótese alguma, pense no passado com conceitos atuais. E pior ainda, nunca, mas nunca, nem sequer permita que esse pensamento passe por sua mente, evite como um cristão radical evita o sexo promíscuo e divertido e gostoso, nunca pergunte “E se...?” ! É praticamente o código para explodir o prédio, colocarem fogo no lixo, as bundas enrugadas na janela e iniciarem a revolução. Há relatos de estudantes de história desaparecidos em todas as universidades do Brasil afora, e até na França, que se aventuraram a perguntar. Quer causar um silêncio constrangedor na sala de aula? Simples. Levante a mão e pergunte com a maior cara-de-pau: “Professor, o que aconteceria se Eva fosse lésbica e não gostasse da serpente?” . Você vai escutar a tensão gerada, os murmúrios de reprovação e o fulminar dos olhares.
O problema é que tudo que é proibido é mais gostoso. Duplamente. Esta tentação anacrônica é uma diversão do historiador e que geralmente aparece na mesa do bar, após uma ou duas louras geladas, vivas e com colarinho. Nesse momento livre da repressão pseudo-intelectual, livre das amarras acadêmicas, o historiador permite que a criatividade pulule de alegria e passa a inventar teorias, sugerir situações hipotéticas e absurdas e ainda é capaz de defender suas idéias com argumentos e fontes de diversas categorias! O anacronismo é a êxtase do historiador. É a superação dos obstáculos. É o momento em que ele pode usar sua inteligência, seu senso crítico pra criar um mundo que deixou de existir devido a um fato, uma decisão ou um conjunto de fatores que implicaram no mundo como conhecemos hoje. O literato pode criar um mundo de fantasia, o químico pode mergulhar no mundo real das micro células e o estudante de Educação Física pode pensar no seu futuro como vendedor ambulante na 25 de Março, mas somente o historiador pode imaginar um mundo inexistente com sabor real; somente o historiador tem o preparo e a capacidade para desenvolver todas as implicações possíveis caso César tivesse matado Brutus, Cabral descesse na América do Norte ou Dom Pedro gritasse “Independência é o caralho!” . Esse mundo fantasioso prima por uma sustentação real. Conforme a rodada de bebida avança, essa sustentação se torna surreal, mas o historiador não liga. Ele quer se divertir pela primeira vez fora da vida acadêmica. Ele fala besteira, enrola a língua, dá risada, critica o amigo e todos mergulham nessa viagem proibida, sem culpa e sem pressa.
No outro dia, após a ressaca, se você encontrar o historiador e falar: "Ótimo paralelo você fez ontem no bar, caso Stálin fosse chinês!” , ele irá retorcer o nariz e negar até a morte que falou qualquer coisa sobre esse assunto. Encoste uma faca com ponta quente em seu olho, ameace sua família e ele ainda irá negar. “Anacronismo? Moi? Nunca meu bem, nunca! Eu tenho classe.”
Mas no fundo no fundo, ele está se regojizando por ter tido sua idéia bem-aceita.
E não vê a hora que a revista bem interessante chegue com sua seção favorita: “E se...?”
PS: não percam, próximo texto: “E se eu tivesse casado com a Dançarina do Ventre”?
Dan Barish escolheu às 10:29 PM Comments:
Domingo, Outubro 12, 2008
Um vício, uma despedida.
Engraçado é que existem várias maneiras de uma pessoa acabar se entregando a um vício. Talvez engraçado não seja uma boa palavra para descrever tudo isso, mas vocês hão de convir que é, no mínimo, irônico. Grande parte dos viciados hoje em dia chegou ao ponto de não viver mais sem alimentar seu vício por alguma coisa simples que os empurrou em direção a esta avalanche de coisas ilícitas, vontades tenebrosas, desejos inconseqüentes e diversão. Analisemos as possibilidades:
a) "Experimenta!". Acontece, na maioria das vezes, em uma rodinha de amigos, com alto teor de "masculinidade" e ofensas pessoais envolvendo frouxidão, dúvidas quanto à sexualidade etc. Toma-se um gole com cara amarga, traga-se um cigarro e a fumaça sai na tosse, na garganta queimada, na cara satisfeita provando a si mesmo para todos os acusadores. O problema é quando isso se torna um hábito e o indivíduo é testado várias vezes, aumentando o grau de intensidade a cada gole, a cada saída, a cada balada e quando se menos vê, o experimenta vira cotidiano, vira dia-a-dia e quando se menos vê, vira necessidade. Provavelmente os amigos, aqueles que o empurraram para isso, nem fumam mais, casaram, têm filhos e trabalham todo dia engravatados....
b) Curiosidade: Você está em casa, sozinho. Seus pais foram viajar. Você sempre escutou seus amigos comentarem como era divertido tomar um porre, que fumar um cigarrinho da alegria deixava tudo mais divertido e coisas do gênero. Aí você aproveita a solidão, o momento onde ninguém vê, e toma todas que precisa. Geralmente nada extraordinário. Aproveita a embriaguez só. Joga a fumaça pelos cômodos da casa e depois se lembra de abrir a janela pra não ter cheiro de fumaça quando alguém chegar. Dificilmente isso vira um vício a não ser que seus pais viajem com freqüência ou você more sozinho. Aí, a cada oportunidade, traga-se mais um caneco e quando se menos vê, a solidão vira sinônimo de necessidade e a cada momento só, a garrafa, o cigarro, o pôquer on-line, seja lá qual for o seu, vira vício.
c) Esse é o mais comum: pé-na-bunda. Tudo estava bem. Você tinha a vida que todos queriam ter. Casa, carro, trabalho bem-remunerado, uma pessoa perfeita que lhe acompanhava. De repente, por uma idiotice sua ou dela ou de ambos, ela se vai. E aí, ainda que no começo você finja a todos que está tudo bem, surge uma necessidade de preencher o vazio, de apaziguar a ansiedade, de colocar um fim nessa saudade estúpida. Toma-se um gole pra afogar as mágoas; acende-se um cigarro pra iluminar as trevas; aposta-se todo o dinheiro, pois nada mais importa. Conforme o tamanho do amor que se foi, maior as chances desta tentativa vã de substituí-lo virar um vício desgarrado. Quando se menos vê, o álcool vira o melhor amigo, o cigarro é importante a cada hora e a jogatina faz parte da graça do fim de semana.
d) Charme. É um pouco difícil explicar esta maneira já que envolve a coisa que deixa o ser humano em seu ápice de estupidez, ainda que ele não perceba. Quando alguém quer chamar a atenção de outra pessoa, vale tudo, até fingir algo ou tentar mudar um traço de si mesmo. Exemplo: você quer conquistar alguém que trabalha com você e fuma. Você odeia cigarro. O cheiro lhe embrulha o estômago. Mas sabe que os momentos em que ela sai para fumar são os poucos momentos em que você consegue tranqüilidade para conversar. Logo, você passa a fumar. Ela se surpreende com esse lado seu e você já sabe várias marcas de cigarro para se exibir. Até treina soltar círculos de fumaça e outras formas. O tempo passa, vocês até se relacionam, ela se vai, o vício fica e você morre de câncer no pulmão. Mas até que valeu a pena.
Acredito que existam outras maneiras de se viciar em algo. Eu confesso que o meu vício é meio que um misto das opções C e D. Eu queria conquistar uma menina no colégio, então passei a escrever poesias. Obviamente eram toscas. Graças a Deus não as tenho mais. Enfim. Entreguei as poesias e levei um fora. Mas o vício da escrita já estava inserido então passei a escrever poemas sempre que queria conquistar uma garota. Isso explica a longa série de foras que tomei no colegial. Até que uma louca gostou e começamos a namorar. Quando levei o pé-na-bunda, comecei a escrever pra desabafar. Algo meio diarinho. Com a ferida fechada os textos foram tomando formas diferentes e nem percebi ao ter a necessidade compulsiva de escrever. A poesia fora abandonada mas os textos tinham formas peculiares e eu gostei. Recebi alguns elogios, outras críticas e continuei. Já são vários e vários anos de escrita, de inspirações súbitas, escrevendo no ônibus, no metrô, no trabalho, na USP, em diversos lugares. Quando a inspiração não vem tenho crises de abstinência como qualquer outro viciado. Sinto vontade de escrever. Eu preciso disso. Preciso da minha dose, preciso calar minha alma, satisfazer meu vício. E ter paz.
A questão aqui é que todo vício tem sua conseqüência. Famílias são arruinadas, dinheiro se vai etc. O meu é simples: quando eu escrevo sobre algo que sinto, tal sentimento tende a diminuir e algumas vezes até a desaparecer. É impressionante. Meu talento em transformar palavras em belos arranjos tem um preço alto e uma vantagem. Quando sofro, escrevo. O tempo lê e passa. Alivia. O problema é quando sinto algo bom e escrevo. O tempo lê, ri e me sacaneia. Quando eu menos vejo, passa. Simplesmente se esvai, acaba, puft. Se você olhar a cronologia dos textos aqui publicados, vai ver que fiquei um bom tempo sem escrever pois quis conservar a felicidade comigo. Deu certo. Mas quando tive dúvidas sobre o que senti, e resolvi escrever, minha maldição veio à tona e tudo se perdeu. Eu fiz escolhas, escrevi sobre elas e elas acabaram comigo. Hoje só tenho a solidão, a saudade e uma vontade enorme de voltar no tempo pra tentar me convencer a fazer tudo diferente. E como não quero mais sentir tudo isso, decidi escrever sobre. Pra ver se some. Pra ver se me deixa em paz e desocupa o meu coração pra outra inquilina ocupar.
E para isso acontecer decidi me envolver em outro projeto. Vou usar essa maldição ao meu favor e que o tempo decida. Não estranhem se esse local ficar meio às moscas, se faltar textos etc. Mas eu preciso seguir adiante e vou sacrificar tudo o que for preciso pra deixar tudo para trás.
As escolhas vão se tornar uma ótima lembrança.
PS: Dan Barish is now chasing pavements even if that leads nowhere....!
Dan Barish escolheu às 12:44 AM Comments:
Terça-feira, Setembro 30, 2008
Naked
Há sangue em minhas mãos enluvadas. Fresco. Algumas gotas caem no chão acumulando poças grossas e vermelhas; algumas gotas respingam no meu corpo e me mancham de uma maneira inesquecível. O som delas caindo no chão é poético, pingando lentamente e se aglomerando, se aglutinando, sendo o que não posso ser. Minhas mãos ficam cada vez mais pegajosas e eu não tenho muita certeza de quem é todo este conjunto de hemácias, plaquetas e leucócitos. Poucos feixes de luz entram pelo local deixando-me ainda mais na penumbra que vivo. Vejo reflexos no chão em cacos de mim espalhados por aí, fragmentado em mil, em mim, em todos nós. As gotas pingam ainda num ritmo mais adagio. Eu continuo hipnotizado pelo som, por esta valsa lenta e monofônica que embala minha mente e acalma meu peito. Como em uma dança, circulo levemente e livremente pelo quarto, desfrutando mais uma vez da sensação de paz que a morte traz. Abro as cortinas e deixo a luz entrar, iluminando tudo o que temos a esconder, cada demônio, cada monstro, cada parte de nossa podridão varrida para debaixo do tapete. Brado alto com o fôlego de meus pulmões, um urro de satisfação e prazer, tão comum para o lugar onde estou. Minha mão deixa marcas em todo o lugar, nas paredes, nas cortinas, fazendo com que o quarto se torne uma caverna rupestre. Provavelmente eu teria que pagar este caos se fosse passar no caixa. Respiro. Finalmente respiro, sentindo o bombardeio do coração diminuir, a excitação passar e o júbilo acalmar. Olho o relógio. Ligo a TV, ligo o som, o chuveiro, a banheira e deixo a cacofonia invadir tudo enquanto gargalho na cama, rolando de um lado para o outro sem pressa. O único canal disponível é perverso e emite seus clichês. O tempo se joga para frente e o telefone toca. Uma vez. Eu dou risada. Duas vezes. Eu rio mais alto. Três vezes. Sorrio. Quatro vezes e então estico a mão e atendo, no meio daqueles gemidos altos oriundos da TV. A moça avisa, tentando parecer a coisa mais natural do mundo que "a hora do casal está acabando" - ela mal sabe que acabou faz tempo, mas os urros da TV a ludibriam. Eu digo alegremente, entre um barulho e outro da TV, fazendo chiados, que ficarei mais. Ela agradece a preferência. Eu desligo, olho a bagunça ao meu redor. Visto-me, deixo minha caixinha de presente dentro de uma gaveta que será vasculhada. Minha parceira era meio fã de coisas novas, então nem ligou quando levou umas palmadas de luvas. Ainda bem. É hora de ir.
A noite foi boa para mim. Acho que minha companheira não concorda. Talvez seja pela humilhação que ela irá passar quando abrirem o quarto e a encontrarem nua, com sangue por todo lado e a garganta cortada.
Pensando bem, isso não importa pra quem morreu, certo?
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- Outra?
- Sim. O modus operandi é diferente mas deve ser o mesmo cara.
- Aqui? Não é a cara de nosso rapaz.
- Ele é versátil, você deveria saber disso.
- O que eu não sei é como as garotas saem com esse p*to. Há sinais de estupro?
- Não, não.
- Então essa vadia deu de bom grado!
- Sim... como elas não conseguem identificar um assassino?
- Se fosse fácil você não teria emprego. Graças a Deus estas pessoas morrem pois assim você garante o sustento dos seus filhos.
- Que horror!
- C´est la vie..
- Cesta o quê?
- Nada. Algo de novo?
- Sim.. .há marcas de mão por todo o quarto, cacos de vidro no chão, poças de sangue. Nosso rapaz estava nervoso. Nunca vi ele cortar uma garganta antes.
- Isso explica a quantidade de sangue. Nossa equipe forense conseguiu algo das marcas de sangue?
- Tá achando que isso aqui é o que? CSI? Dexter? A Scotland Yard? O máximo que eles conseguiram foi descobrir que a jovem foi morta logo após o coito.
- Ahhh. Nosso rapaz deu uma trepadinha então!
- Que linguajar mais chulo inspetora!
- Eu sabia que ele não ia resistir. Ninguém agüenta ficar muito tempo sem.
- Eu consigo inspetora.
- Isso porquê você é um cristão tolo e ainda não experimentou. Quando descobrir como é bom....
- Ai Jesus! Cala-te mulher! Nós conseguimos uma gravação telefônica, mas o equipamento deste recinto é ruim.
- Nossa que barulheira! Só é possível ouvir os gemidos de fundo. Provavelmente ela estava viva esta hora. Nenhuma gravação em vídeo?
- Você acha que essa espelunca, no centro de Suzano, vai ter câmera funcionando? Aposto que essa água da banheira não é trocada há anos.
- Você está soando experiente em motéis, soldado.
- Não tenho culpa se é só isso que os policiais falam. E eu não sou soldado.
- Haja banho frio hein!
- Nem me fale....
- Inspetora Brito! Achamos algo e parece que é para você.
A inspetora caminhou até o policial e pegou a caixinha de presente, com o cartão escrito com sangue: "P/ Gabi. Com carinho." Ela riu, xingou-o de filho-da-p*ta, chocando os demais policiais que ainda não a conheciam bem. Quando ela abriu a caixa, encontrou um mp4, desses vagabundos comprados em qualquer lugar. :
- Esse p*to acha que é quem? O Jigsaw? Que merda - e apertou o play. Não havia mensagens com vozes distorcidas, propostas de jogos mortais ou uma voz dizendo que ela havia sete dias de vida. Simplesmente um rock´n roll começou e a inspetora, possessa, jogou o mp4 na parede, deixando apenas uma frase ecoar no ar:
"I like you so much better when you´re naked..."
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I like me so much better when you´re naked... - tocava no meu celular enquanto eu caminhava rumo à estação de trem. Eu sei que foi arriscado. Eu sei q ue deveria ter resistido. Eu sei que toda aquela bagunça não faz meu estilo, mas é preciso confundi-los um pouco. Eles vão ouvir Ida Mara até dizerem chega e a música dela vai se popularizar um pouco. Mas a verdade é que eu não resisti. Imagine a cara deles quando descobrirem que as mãos de sangue foram feitas com uma mão de manequim molhada em sangue de porco! Vai ser hilário! Fiz tudo isso por uma razão. Se a morte é o que inspira minha vida devo lembrar que cada morte é cúmplice do amor. E quando olhei na TV a inspetora que havia voltado de Londres, após um caso enorme de sucesso na Scotland Yard, onde capturara um serial killer de imigrantes ilegais, eu senti aquela adrenalina de novo, aquele tremor nas mãos, aquela vontade de largar tudo, ser impulsivo, ser aquele que eu matei e enterrei anos atrás sob tantas camadas de frieza, sarcasmo e sanguinolência. Talvez fossem efeitos especiais da TV, mas quando ela, no meio da conferência televisiva, falou sem qualquer censura "que ia pegar esse p*to de merda a qualquer custo", eu senti meus olhos brilharem. Finalmente uma adversária à altura. Finalmente alguém que tentasse impor ordem ao caos, que reconhecesse essas mortes literárias e reais. Finalmente alguém que valesse a pena matar por, morrer por e correr todos os riscos. Finalmente alguém que me completa e tenta me entender ainda que por vias tortas. Mas Deus não escreve certo por linhas tortuosas?
Ela precisa me achar e me entender. Enquanto isso eu continuo me procurando, resgatando cada pedaço de mim doado àquelas que não valorizaram. Para eu me achar, outras devem morrer. Que pena não? C´est la vie.
Uns morrem, outros matam e eu me divirto.
PS: yeah, he is back!
Dan Barish escolheu às 12:40 AM Comments:
Domingo, Setembro 21, 2008
Sinos
Cinco da tarde. O relógio da igreja no complexo da São Bento bate seus sinos repetidamente, irritando alguns com seu barulho rotineiro e soando como liberdade para mim. Há mais de três anos este tem sido meu alarme, meu gongo salvador que permite desligar-me, temporariamente, dos problemas e tarefas pendentes do trabalho. Ainda que raras vezes saio neste horário, não tenho dúvidas do quanto o sino e todo este centro fétido e histórico, traz-me memórias, me inunda de lembranças, faz-me sentir o amargor de algumas derrotas, o pesar de outras escolhas e o doce sabor das vitórias. Meses atrás, quando eu saísse pela porta automática, seria recebido por um sorriso impagável e um abraço quente. Talvez dali direto para um cinema para deixar o escurinho apimentado ou uma companhia durante a espera pelo ônibus ou simplesmente tacar-se fogo a dois num quarto ou em uma sala qualquer. Anos atrás, seria apenas um momento de fuga, de ida para a faculdade sem grandes significados. Talvez um jantar com os amigos num rodízio de sushi ou um Chocoturbo com as amigas e em ambos os casos deixar-se afogar nas risadas, besteiras ou conversas com alto teor sexual - não recomendado para menores ou virgens. Independente do lugar para onde ia após as fatídicas badaladas, não posso esquecer o quanto este lugar é importante para mim. Algumas pessoas encaram seus locais de trabalho apenas como um local que dá trabalho; cada vez mais as pessoas, visando os cifrões, se entregam às rotinas que as fazem infelizes ou estressadas. Não eu. O meu trabalho me faz rir, chorar, amar e odiar; faz-me sentir humano e ser um; faz-me desenvolver características que anos atrás, ao aguardar em fila para entrar pela primeira vez por estas portas automáticas, sequer passavam por minha mente. Meu trabalho proporcionou momentos que fazem parte de mim e conheci pessoas que me ajudaram a construir quem hoje sou. São três anos de lições e aprendizados, escutando os sinos a cada hora, seja de entretenimento, amor, trabalho ou ódio, mas são os três anos que me moldaram.
E é com pesar que saio ao som dos sinos sabendo que não voltarei da mesma maneira. Hoje digo adeus, sem saber o que o futuro me aguarda, além de um borrão completo. Aceno para os amigos, sorrio para os inimigos e anoto telefones dos amores. A vida me empurrou para outro lugar, mais uma vez de surpresa e apenas deixo-me ir enquanto uma parte de mim fica, como agradecimento, por tudo que aprendi e conquistei neste período, por cada lágrima e gargalhada, por cada pessoa descoberta, por tudo. Não ouvirei mais os sinos na saída, não comprarei mais bugigangas na hora do almoço e não respirarei amores antigos nestes corredores. Uma parte da minha história se encerra e minha barriga congela ao pensar nas aventuras do próximo capítulo. Se serei mocinho, vilão ou príncipe encantado, só o tempo dirá; talvez o final seja feliz, talvez não, mas sem dúvida os capítulos vividos até aqui tiveram a alegria como roteirista principal. Foram inúmeros dias, diversos obstáculos, coisas impossíveis que se tornaram possíveis num piscar de olhos, milhares de copos descartáveis com café, risadas incontáveis, lágrimas escondidas e algumas visíveis, segredos e aprendizados. Eu olho para este prédio cinza, quadradão, para as recepcionistas mal-humoradas e os seguranças do mês, e me dá um aperto desgraçado. Eu juro que havia prometido ficar só um ano quando aceitei o trabalho e já estou rumo ao quarto. Cada vez melhor. Cada vez maior. As responsabilidades se acumulam e o mundo se expande, cada vez mais mágico, um pouco trágico e nada letárgico. Vivi coisas inesquecíveis, conheci pessoas impossíveis e levo tudo isso comigo. Meu coração bate forte e sorri triste pensando na despedida, pensando no novo amanhã, pensando que as coisas nunca mais serão como são agora pois tudo mudou. Tudo. O cenário, as pessoas, o roteiro, o cachê, tudo. É uma nova temporada e eu nem vi quando a outra acabou. Todas as conquistas feitas neste período agora são meros troféus ou lembranças de derrotas distribuídas na estante, na minha estante e na sua estante. Algumas pessoas me viram sempre aqui e outras agora podem perceber que já fui. Pra onde? Para o desconhecido, para onde o frio aumenta na barriga, o suor desce gélido e tudo pode mudar. Um lugar repleto de conquistas a serem feitas, uma América toda para ser descoberta cheia de riscos e emoções, cheia de aventuras e desventuras, com várias oportunidades de felicidade e com várias escolhas a serem feitas.
É impossível voltar. Completamente. Hoje tenho o amadurecimento suficiente para olhar para trás, olhar o ano de 2005, ver mês a mês, dia a dia, escolha por escolha e ter noção completa de que fiz o meu melhor, até aqui. Revejo cada segundo, cada noite, cada dormida no ônibus, na aula e cada amizade feita, cada inimizada colhida, cada beijo roubado, cada hot dog comido e percebo que tudo isso, em cada singelo detalhe, em cada peça de um imenso mosaico, foi se fechando e se completando até formar esse quadro que olho agora, com sua moldura ao som de sinos, olho a pessoa que se formou e sorrio satisfeito. Confesso que queria algumas coisas diferentes nesse exato momento, mas o resultado final está sensacional. Quantos não olharam para o garoto que adentrou estas portas e não reconhecem o homem que sai agora? Minha face ainda pode transparecer adolescência mas minhas atitudes confirmam o adulto que vos escreve - ainda que com um pé atolado na subversão pueril dos jovens, e com prazer. As sensações que me passam agora são confusas, se chocam, se driblam e brigam e beijam e se arrastam e voam de uma maneira que não sei descrever. Como uma esquadrilha de borboletas, com cores, formas, asas diferentes mas ainda assim formando algo único. Eu queria um amor que não tenho mas acabei ganhando tantas outras coisas e uma oportunidade de encontrá-lo num lugar novo; ou melhor, deixar que este amor me encontre pois a máxima "quem procura, acha" está completamente desgastada pelo tempo. Quem não procura é encontrado e é exatamente o que eu vou fazer. Brindo à vida, aos amigos, ao tempo, aos amores e às risadas por ter me dado tudo o que levo comigo. Brindo aos sinos que me acompanharam até aqui e deixo um pedaço do meu coração num quadro pra que todos possam ver, acreditar e escolher. Porque não importa o que aconteça é tudo uma questão de escolha. Eu fiz as minhas. E acertei a maioria.
Futuro, lá vou eu.
Boa sorte pra quem fica.
PS: mas ainda assim odeio despedidas.
Dan Barish escolheu às 11:31 PM Comments:
Sexta-feira, Junho 26, 2009
Palavras.
Eu tenho evitar mas tenho que assumir: sou viciado em palavras. Amo-as de todos os jeitos, de todas as formas que elas podem ser descritas, pintadas ou cantadas. Adoro o jeito que elas podem se desdobrar, se descobrir, se destruir. Palavras feias, palavras grandes, palavras pequenas que dizem muito e palavras que aparentemente não dizem nada. Pode ser palavrão ou até mesmo uma única palavra. Não importa. Eu as devoro. Eu as observo, analiso, disseco como um filólogo a faria. Mas nem sempre interessa-me sua história, sua origem, sua razão social. A mim, o que importa é a escolha. Por que escolheram esta palavra e não aquela? Qual é o sentido que quiseram transmitir ao coloca-la em vez de um sinônimo, em vez de um antônimo, em vez de algo diferente. Vocês já pararam para pensar em como grandes obras da Literatura, da Música, do Cinema e de qualquer outra arte que envolva a palavra seria diferente com leves alterações? Vocês já pararam para degustar uma palavra, pensando em seu ritmo combinado entre vogais e consoantes, dígrafos e sílabas tônicas, criando uma música a cada novo conjunto infinito de sons?
Os números podem não ter fim, mas dependem das palavras para serem descritos, escritos e se tornarem reais em seus conjuntos. As palavras são combináveis, são instrumentos loucos de nossa boca, de nossa capacidade mental, de nosso coração surdo. As palavras podem ser bêbadas, daquelas que tropeçam uma nas outras para chegar em algum lugar ou agitadas como um corredor de maratona; podem ser serenas como a voz da Vanessa da Mata ou gritantes como uma torcida organizada de futebol. Palavras falam, respiram, abençoam, amaldiçoam, criam e matam. Deus disse as primeiras palavras para criar o mundo. E quem criou as palavras que ele disse? Fiat Lux, chevrolet ou qualquer outra designação. Palavras são simplesmente a estrutura espinhal de quase todas as culturas modernas e àqueles que não as organizaram ficaram perdidos em algum momento da História. A palavra empurra o tempo para frente, registra o ontem para ser visto, lido e vivenciado, e é capaz de nos esboçar como será o amanhã. As palavras sutis e afiadas podem envenenar alguém com maior efeito que arsênico, podem iludir mais que uma hipnose ou serem doces o suficiente para despertar em nós sentimentos que movem os corações para o mesmo lado, para a mesma valsa, para sempre. Palavras de grande importância que movem o mundo e palavras ditas em qualquer lugar, por qualquer um, que perpassam a vida pairando no ar, estourando como uma bolha de sabão. Palavras que imitam sons, como o ploc da bolha de sabão mencionada anteriormente e palavras que imitam a vida. Palavras e mais palavras criadas, desenhadas e distorcidas em idiomas diferentes, de todo o mundo, de todo o lugar. Palavras gravadas em uma tábua na Lua mostrando nossa (pseudo)inteligência e superioridade. Palavras estampadas em bandeiras ditando políticas do país e ausência de palavras censuradas em alguma ditadura. Palavras usadas por jovens para protestar e palavras usadas por autoridades para reprimir.
Nós precisamos das palavras e mal percebemos o quanto elas compõem o nosso dia-a-dia, o quanto elas desenham nosso cotidiano. Alguns tem maior habilidade para organiza-las em uma parada comemorativa, com efeito, com capacidade de despertar sensações em quem lê enquanto outros a tratam com maior rispidez, como uma coisa comum e sem especialidade. Isto me entristece. As palavras são tão belas e às vezes tão desprezadas. Quem nunca achou graça em ficar analisando como sobrancelha parece pairar no ar enquanto confim é uma palavra muito engraçada pra dizer algo tão distante não sabe o que é apreciar a arte da palavra. Há quem saiba usar tão bem este instrumento que a palavra vira arma, vira manipulação e destrói mentes mal-estruturadas. Há quem não as use corretamente e diz o que não devia, o que não queria e carrega as marcas das escolhas feitas pra vida toda. Palavras juntas, separadas, com significados ou palavras inventadas no dia-a-dia. Palavras que só existem em tempos específicos, presas por grilhões em passados e palavras que só existem porque nós as inventamos. E já pararam para pensar que teoricamente tudo começou porque uma entidade divina disse palavras para criar e agora nós criamos palavras para nossas próprias invenções? Big-bang, evolução, blog, computador. Quem nunca ficou encucado em separar com-puta-dor e ficar viajando em o que as putas tem a ver com o mundo da informática? Talvez tudo isso seja um grande desvario meu, uma paixão velada e vocabular. Talvez seja loucura, mas as palavras enfeitiçam. Tem quem use-as tão bem que os livros grudam e despertam uma avidez por ler, por chegar ao fim e ver se esta fome de letras some. Tem gente que as coloca tão bonitinhas em fila, com um ritmo em cima que vira música, que os outros dançam, gravam, comercializam e se apropriam da palavra dita. Se há séculos havia trovadores que viviam das palavras ditas para homenagear suas senhoras ilustres e ilusórias, hoje compramos palavras de diferentes significados no super-mercado.
Palavras, palavras, palavras. Conjunto de letras organizado de maneira que faça sentido para quem lê. Palavras que são capazes de distinguir socialmente e culturalmente uma pessoa das demais. Palavras que podem determinar ordens irrevogáveis, ditas para todo o sempre e que nunca mais terão cura. Palavras para sempre, palavras para o fim, palavras para qualquer momento. Palavras que são conjugadas, outras que são sujeitos e algumas simplesmente são inexistentes! Palavras que gravam, que somem, que curam, que machucam. Palavras e mais palavras que emboladas perdem o sentido. Palavras que são nome de programas para escrever mais... palavras! Palavras tão mágicas que até erradas são compreensíveis. Palavras que nos fazem rir, gargalhar e sentir-se bem. São palavras e mais palavras. Palavras para todos os gostos, palavras para todas as cores, religiões, sexos e vontades. Palavras que despertam desejo e palavras que expulsam demônios. Palavras para os deuses, para os outros, para cada um. Palavras para o amor, para o ódio, para suprimir e silenciar. Palavras para mim, para você, para qualquer um. Palavras exclusivas de grupos e palavras que só corações uníssonos entendem (popoca?). Palavras eternas etéreas etílicas. Palavras sem sabor e tão saborosas quanto a vida. Palavras que possuem uma grafia tão feia, como a própria palavra. E que independente disto causa reações sem par. Palavras que arrepiam, que entristecem; palavras que simplesmente tem o poder de nos fazer ser o que somos: humanos.
E responda-me com uma ou mais palavras: como não gostar delas?
veja mais palavras em http://twitter.com/danbarish
Dan Barish escolheu às 1:54 AM Comments:
Terça-feira, Maio 19, 2009
Despedida
A Lit nunca mais voltou.
Lembro claramente a noite em que cheguei radiante e ela já estava de malas prontas, com um sorriso triste estampado e um olhar de derrota em cada íris.
- Onde vai? – perguntei
- Fugir. – a resposta lacônica cortou o céu.
- Não há necessidade. Por favor, fique.
- Ficar? Para quê? Sofrer? – ela respondeu com os olhos marejados
- Você sabe que eu preciso de você.
- Não mais – e começou a andar em direção à porta. As luzes se apagavam concomitante ao seu caminhar, deixando me brilhando só na penumbra.
- Diga ao menos para onde vai – gritei, num misto de alívio e desespero, escutando minha própria voz ecoar no corredor.
- Encontrar outro alguém. Qualquer um. Pode ser a Solidão, a Raiva, o Desespero. Qualquer um.
- Desculpe. Aconteceu quando menos vi, de maneira muito intensa.
- Não há o que desculpar. Sempre imaginei que um dia isto fosse chegar ao fim.
- Isto? Agora é apenas isto? Várias noites em claro, perdendo-se um no outro entre linhas, palavras e histórias de amor vividas no futuro, no presente e no passado?
- Pare de me lembrar. Não me machuque mais... já está doendo o suficiente.
- Também dói ver você partir. Fique. Vamos tomar um drinque, pensar, deixar as letras resolverem isso. Não tome uma decisão assim, sendo irracional.
- Irracional? – ela bradava – Você me acusa de ser irracional enquanto transmite esse brilho insano no olhar? Você tem a capacidade de me acusar enquanto eu ouço daqui a intensidade que o seu coração ousa bater, transgredindo o nosso silêncio sacro? Você me acusa de irracionalidade enquanto mal consegue se concentrar, levando seus pensamentos para ela, para o sorriso, o cabelo liso, o umbigo, cada centímetro de seu corpo e de sua alma que você insiste em relembrar? Você me chama de irracional pois sabe que essa foi a única decisão racional que tomei. Beba você o seu veneno e deixe-me ir.
Ela me conhece bem. Eu vi as letras caídas no caminho que ela percorreu, salpicado por algumas lágrimas e por memórias cravadas em mim. Pela primeira vez em anos as palavras me faltaram. Ela estava cada vez mais perto da porta, a mão dirigindo-se firme à maçaneta e todas as vogais que eu conhecia se embolaram nas consoantes, me engasgaram e nada disse. Ela estava certa. Eu deveria deixa-la ir. Mas era um relacionamento de anos que sentenciava-se apenas como memória; de tudo que vivi, sonhei, menti e escrevi. Minha vida. Minhas mortes. Frustrações e alegrias transcritas que viravam fragmentos de eternidade finita, presa ao que um dia sequer existiu ou deixou de existir. Senti um vazio repentino e quando achei a coragem ela já tinha ido.
A Esperança saiu de trás da cortina, tentando me convencer de que a Lit voltaria, mas eu já não acreditava nela há anos. Enxotei-a pela mesma porta em que a Lit se foi e entristeci-me por alguns segundos.
Então percebi que ela realmente estava certa. Quando o vento bateu, a porta fechou e o tempo correu, eu já estava pensando naquele sorriso lindo que eu acabava de ver, tanto ao vivo como gravado em mim; lembrei-me daquele corpo a qual me enchia de um desejo louco o suficiente para enfrentar tudo o que fosse preciso; lembrei da alegria que eu sinto ao pensar nela, ao estar com ela e ao planejar o amanhã ao lado dela. A Lit estava certa. Meu coração havia perdido espaço. Talvez eu não tivesse me dado conta mas quando percebi já a amava. Amor daquele enferrujado, que eu não sentia mais, que parecia conto de fada, mas que quando vi, olhando-a tão bela deitada ao meu lado, sabia que a Lit teria que desaparecer. O Amor trouxera sua bagagem, mobília e até animal de estimação, sem se preocupar com nada e melhor, fazendo com que eu deixasse de me preocupar. Esse sentimento extraordinário engasgado em mim, querendo ser verbalizado a todo instante. E quando verbalizei, sentindo-o fluir de maneira tão verdadeira, percebi o que a Lit sempre soube: não havia mais necessidade de escrever. O sentir e o falar já eram suficientes para transmitir minha alegria e acalmar minha alma. A Lit teria que ir embora.
E ela realmente foi.
De vez em quando recebo um cartão. Nunca há o endereço ou qualquer pista. A Lit não manda achando que a procurarei; não escreve para não nutrir esperanças de tal ato. Ela diz estar bem e que encontrou outro. Eu torço para ser verdade. Guardo o cartão com os outros em uma caixinha, permito-me um minuto de comiseração própria e quando menos vejo, já estou sorrindo pensando no meu Amor.
A Lit teve que ir para que eu pudesse ser literalmente feliz.
PS: www.twitter.com/danbarish --> ainda descobrindo o que é =)
Dan Barish escolheu às 10:02 PM Comments:
Segunda-feira, Abril 27, 2009
Silêncios.
Já fazia um tempo que eu havia desacostumado a chegar em casa escutando de longe os latidos do meu cachorro. O Tempo o pegou de jeito e ele foi, gradativamente, perdendo o entusiasmo que ele demonstrava sempre que alguém abria um portão, um carro passava ou o caminhão do gás. Acredito que não era surdez e sim apenas um certo enfado pela vida. Infelizmente o Tempo também me atingiu e eu já não tinha mais tanto tempo livre pra correr atrás dele como fazia há doze, treze, quatorze anos; eu não pedia mais para ele arrancar o ralinho do quintal e trazer pela boca, para fúria da minha mãe que insistia em cimentar o ralo no corredor do quintal. Para mim, meu cachorro tornara-se tão adulto quanto eu e nosso contato tornou-se parco. Talvez se ele possuísse um Buddy Poke no Orkut eu seria mais próximo, e isso agora me faz sentir realmente mal por tudo.
Eu lembro, uma das poucas memórias da minha vida infanto-juvenil, de ir compra-lo. Não lembro o bairro, mas lembro claramente que era escuro. A casa era grande, branca, com um quintal enorme onde uma Pastora-Belga de nome Jade morava com seu dono. Jade tivera somente dois filhos; um todo preto, conforme a característica da raça e um outro, segundo o criador, "com um defeito genético": havia uma manchinha branca no peito, fugindo do padrão negro tradicional da raça. Ele nos propôs um desconto neste com a manchinha, alegou que a mancha sumiria com o Tempo mas meu pai pediu que eu e meu irmão escolhesse independente do preço - tempos áureos. Eu lembro claramente de me abaixar, fazer um pst pst tosco com a mão para ver qual dos dois viria brincar comigo. O "defeituoso" veio, com 45 dias de vida, tropeçando nas próprias patas mal-acostumadas a andar e eu o peguei. Não houve dúvidas. Era ele.
Quando chegamos em casa eufóricos por causa do cachorro, minha mãe fez uma pergunta crucial:
- Ele é pequeno?
Nós o mostramos. Ele estava dentro de um engradado de refrigerante e não conseguia sequer sair dali. Minha casa, recém-comprada, estava cheia com meus primos que corriam pelo quintal e ele olhava, tão pequenino, de dentro do engradado curioso, soltando ganidos que eram um simples eufemismo para um latido bravo. Minha mãe ficou feliz. O cão era cãozinho, tinha uma manchinha branca no peito e parecia amigável. Questionou a mim e a meu irmão:
- Qual será o nome?
- Mancha! - respondeu alguém cuja a memória não me faz lembrar. O nome pegou. Ele passou a ser o Mancha e a viver nesta casa que é hoje, um símbolo de mudança da minha vida. Tudo isso aconteceu há mais ou menos treze anos. Tempo este que meu maior problema na vida era ter que acordar 11 horas para ir a escola, mas antes lavar o quintal e brincar com o Mancha. Bons tempos que agora definitivamente não voltam mais.
Nem preciso dizer que minha mãe ficou emputecida alguns meses depois ao perceber que o Mancha não ficaria com aqueles poucos centímetros pra sempre. Mas quem resistia àquele cachorro que comia moscas deitado, que corria de medo quando minha mãe levantava o chinelo e que morria de medo de água? Ninguém. Meu primo, com seus cinco, seis anos, colocava ração dentro da boca dele e dava risadas altas ao ver que o Mancha não fazia nada. Ele era um cachorro divertido. Pulava, adorava destruir as pipas que caíam no quintal e era meio tarado por pano de prato velho. Morreu hoje, causa desconhecida, sem nunca ter conhecido uma fêmea mas feliz.
Eu não estava presente. Contudo os relatos e a minha imaginação fazem com que minha mente divague na tristeza ao ver que uma parte da minha vida simplesmente se foi. Imagino ele embalado num saco preto, carregado pelos responsáveis pela Zoonose, com a língua possivelmente de fora e deixando de existir fisicamente. Aquele cachorro, que aguentava com toda a paciência do mundo minhas histórias sem pé nem cabeça aos 10 anos de idade, que era viciado em borda de pizza ao ponto de não deixar ninguém dormir arranhando as janelas, hoje passa a ser apenas uma memória. Doce. Cortante. Memória das boas. Por mais imbecil que possa soar, eu queria ter afagado a manchinha branca de seu peito que nunca sumiu mais uma vez e dizer adeus. Talvez até pedir desculpas por estar distante. E contar mais uma história como se eu tivesse novamente dez anos.
Mas o Tempo também me pegou de jeito e só cheguei a tempo de sentir o cheiro forte no quintal e a ausência daquele cachorro preguiçoso, mas que era uma parte de mim, deitado no portão.
Agora é definitivamente o silêncio quem mora no quintal.
PS: sim, diarinho.
Dan Barish escolheu às 10:50 PM Comments:
Segunda-feira, Março 09, 2009
Deus e o Sexo
Nota do Autor: este texto é uma continuação do excelente texto herético intitulado Deus e o Clitóris; em tal pérola literária, o autor desvendou um dos maiores mistérios humanos não-citados no Gênesis: como o Todo-Poderoso decidiu a forma de reprodução humana.
Novamente as nuvens estavam cheias de anjos planando. Ainda que na eternidade o tempo não faça nenhuma diferença, as fofocas nos corredores permaneciam ativas desde a última vez em que o Todo-Poderoso se reuniu para apresentar algo aos anjos. Alguns, mesmo sabendo que Ele podia ouvir tudo, comentavam que a ideia do Anjo Banido era interessante e aparentemente deliciosa. Sempre que algum comentário deste gênero aparecia nos Céus, Ele se retorcia no seu trono e tosses oportunas ecoavam, enquanto as conversas de corredor se dissipavam. O Projeto Homem estava pronto mas Deus sabia que o método de reprodução pelo apêndice seria doloroso e podia colocar tudo em fracasso. Por isso decidiu reunir os anjos e apelar para algo que tinha inventado na última vez que fora ao banheiro: o voto popular.
Obviamente todos os que tinham se proclamado favoráveis ao Anjo Banido não tiveram direito a voto, incluindo o próprio Lúcifer - o sufrágio universal não havia alcançado os céus. Assim, Deus pensou que como só teriam anjos favoráveis a ele, a elite ganharia e ele teria o argumento eterno que reprodução pelo apêndice é muito mais legal que sexo.
Os anjos se calaram quando o Todo-Poderoso planou pelas nuvens e subiu ao palanque, de frente a um símbolo que futuramente ficaria conhecido como a Águia dos EUA, mas qualquer semelhança é mera coincidência.
- Anjos Queridos. Acredito com razão pois tudo sei que ainda há ressentimentos entre nós devido à última vez em que nos reunimos, quando apresentei-vos o Projeto Homem e discutimos o sistema de reprodução do mesmo.
- Uhu! Sex...! – gritou um anjo rapidamente sufocado pela repressão que o impediu de completar o último o. Deus pigarreou e retomou:
- O Anjo Banido propôs um sistema que aparentemente fará mais sucesso do que explodir os mini-homens através do apêndice, e, portanto, iremos fazer uma votação. Meu filho irá recolher os votos. Cada um deve escrever se prefere A) Apêndice – a idéia de Deus, o Todo-Poderoso ou B) Sexo – a idéia do Anjo Banido.
- Tem que escrever tudo isso mesmo? – perguntou um anjo loiro.
- Óbvio que não. Que merda, como é difícil saber de tudo enquanto estes seres não sabem de nada – murmurou Deus baixinho.
- O que o Senhor disse?
- Eu não disse nada – disse com uma vozinha fina, o Menino-Jesus.
- Silêncio! – bradou Deus – Escrevam A ou B e entreguem para Jesus. Rapidamente os anjos votaram. Naquele momento havia aproximadamente cem anjos que votavam na melhor ideia de reprodução humana. O Todo-Poderoso também votou e entregou para o Menino-Jesus. Após alguns segundos inúteis, a votação se encerrou. Deus já sabia o resultado:
- Atenção. O resultado foi: Dois mil setecentos e três votos para o Apêndice e setenta para o Sexo.
- Peraí. Nós somos cem. Como temos tantos votos?
- Ahhhh Jesus! Você multiplicou os votos de novo filho?
- Foi sem querer Papai! Eu não consigo me controlar – disse o Menino chorando.
- Vá brincar com os peixinhos! Vamos refazer a votação de uma maneira mais simples. O voto será aberto. Vão para a direita quem for a favor do Apêndice e para a esquerda quem for a favor do sexo. – Deus, sem perceber, havia criado a condição política de Direita e Esquerda antes mesmo da Revolução Francesa. Os anjos voaram de um lado para o outro e se organizaram.
- Muito bem. Levante a mão quem for a favor do Apêndice.
Um barulho cortando o ar se fez e Deus contou as mãos.
- Ok. Agora quem for a favor do Sexo.
Novamente os anjos levantaram a mão.
- Hummm. 55 votos a favor do Apêndice. 45 votos a favor do Sexo.
- Opaaaa! Deu contraste! Vamos refazer essa plenária – gritou outro anjo.
- Ah São Tomás! Fique quieto.
- Uuuhhh ditador, ditador, ditador – começou a gritar a multidão.
- Isso aqui tá mais divertido do que a futura destruição de Sodoma e Gomorra – comentou um anjo.
- Nem me fale! Uhhh ditador!
- Ok, ok! – disse complacente o Todo-Poderoso – Vamos refazer a votação. Quem for a favor do Apêndice fique sentado, quem for a favor do Sexo fique em pé.
Os anjos se organizaram e Deus contou novamente:
- Ok. 30 votos para o Apêndice e 70 para o Sexo!
- Aeeeeeeeee. Sexo! Sexo! Eu quero um S, eu quero um E – gritava a multidão de anjos que estavam à esquerda comemorando a vitória do sexo. Deus olhou o Menino-Jesus, que nesta altura da história já estava com cinco mil peixinhos e bufou de raiva, pois seu plano havia falhado. Nem mesmo com seu voto triplo ele havia burlado a eleição. Ele pensou no futuro da humanidade, realizando sexo constantemente e sabia que tinha que ter algum insight, uma ideia que salvasse todos do caos e do prazer maravilhoso. Ele não podia deixar a ideia de Lúcifer se perpetuar assim. De repente Ele sorriu. Os anjos engoliram a seco, pois da última vez em que Ele sorrira, os Dinossauros deixaram de existir:
- Muito bem, muito bem. A vitória foi justa. Alguém tem alguma pergunta antes de Eu oficializar o resultado?
- Eu tenho Senhor!
- É pra mim Papai? – gritou o Menino-Jesus.
- Não!
- Que saco ter o mesmo apelido que seu pai – e o Menino voltou a brincar com os dez mil peixinhos que agora lutavam para nadar no vinho.
- Qual é a pergunta?
- Deus, o que é sexo anal que picharam no banheiro da terceira nuvem? – e os anjos riram alto. Deus, pra evitar mais polêmicas, disse:
- É o sexo feito apenas uma vez por ano. E chega! Sem mais perguntas. A votação foi justa e o homem fará sexo para se reproduzir. Com uma condição: ele terá que...
- Ihhh esse cara é um estraga-prazeres mesmo. – disse um anjo que misteriosamente foi atingido por um raio.
- Ele terá que participar de algo chamado Matrimônio.
- O que é isso Deus?
- É uma condição legal, onde ele assinará um documento, jurando fidelidade e amor eterno a mulher cujo homem queira se reproduzir.
- Ahhh. O homem vai poder se casar com várias mulheres Deus?
- Não. Só com uma.
Houve um silêncio na multidão de anjos. Uns olhavam para os outros com cara de “ué”, mas a decepção era nítida. Um ou dois segundos se passaram quando, em uníssono, ouviu se um brado que ecoou até o Éden:
- Impeachment já!
PS: ainda assim o autor deste texto é a favor do casamento.
Dan Barish escolheu às 1:37 AM Comments:
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009
Vodka & Raiva¹
Eu cheguei com o coração acelerado. Uma parte de mim dizia que eu não deveria ter vindo, que não adiantava tentar me controlar ou me esforçar, pois com certeza tudo seria em vão. Meu peito doía como se eu tivesse rolado vários e vários degraus da escada, um exagero óbvio, mas uma metáfora boa para descrever como me senti quando você virou as costas e me deixou. Sei que havia motivos pois não é fácil me agüentar. Mas porra, não precisava me machucar desse jeito. Olho pra essa balada sentindo uma raiva crescer, procurando algo que eu não quero ver. Algo que eu sei que irá doer pois no futuro irá me lembrar o quanto fui cruel e inconseqüente. Com você. Comigo. Com quem for preciso. Foda-se. O que importa é o hoje e o amanhã que fique amarrado ao tempo.
As bebidas rolam soltas e eu as seguro. Um copo de vodka para esfriar os ânimos e embriagar a fúria. Outro pra aliviar a dor. E mais um, só pra fechar a trinca. Vários jovens dançam ao som que sai forte das caixas, sem qualquer tipo de preocupação; olho para outros que buscam suas próximas vítimas, talvez para brincar com seus sentimentos assim como eu aparentemente brinquei com os seus. Alguns casais se formam durante as músicas e se encerram com o piscar de olhos. E os mais afortunados somem nos cantos escuros, nos becos sórdidos entre um copo caído e uma garrafa quebrada. É justamente esse o caminho que eu sigo, procurando-a para resolver essa ausência de ponto final. Eu preciso por esse maldito ponto pra tirar toda essa parte podre de dentro de mim. Enquanto caminho pego mais vodka e vou tomando, deixando a bebida gelada percorrer meu corpo acendendo sensações que deveriam ficar caladas. O perigo dá um sinal e a adrenalina dispara. Eu percebo que alguma merda vai acontecer assim que sinto a visão embaçar levemente com a vodka incessante e meus passos se tornarem mais difíceis. Pisco forte para colocar as coisas de volta aos eixos pois preciso achar quem procuro. E não saio daqui até ter tudo isso resolvido.
De repente tudo acontece como um filme, rápido demais para prestar atenção e sensacional em demasia para ser válido. Ela estava em um canto, apoiada na parede enquanto ele a puxava para bem perto do corpo, dando-lhe beijos no pescoço. No pescoço que até horas atrás era meu. Meu. Andei jogando a garrafa no chão, sem me importar com qualquer conseqüência e o puxei pelo braço com força. Ele foi pego de surpresa então aproveitei esta vantagem: dei uma cabeçada em seu nariz e senti alguma coisa trincar. Ponto positivo. Ele reagiu rápido, ou eu que estava lento devido à vodka, mas seu soco pegou na minha cara e mal senti. Viva a anestesia Orloff. Dei-lhe outro soco, dessa vez na boca do estômago e um na cara. Forte. Senti minha mão canalizar toda aquela fúria e jubilei quando o vi cuspindo um dente embolado em sangue, baba e saliva, sendo segurado por algumas pessoas da balada. Foi então que a vi, olhando indignada, como se sentisse repulsa do meu ato. Ela abriu a boca pra me dizer:
- Que merda é essa? Ele não tinha nada a ver!
- Foda-se. Ao menos eu descarreguei a minha raiva e nem foi em você.
- E você acha que isso vai resolver o quê? Você acha que eu vou voltar pra você agora?
- Cala a boca. Eu sei que não mereço mais nada de você, mas a dor é grande ao ver alguém que a gente gosta com outra pessoa.
- Isso é razão pra fazer tudo isso? Pra socar um cara, partir pra agressão?
- Pra mim é.
- Seu bêbado nojento!
- Não, não. Eu agredi sim, mas foi só um detalhe se eu bebi.
- Quantas vodkas você tomou? Quantas?!
- A culpada não é a vodka, é você que me fez de idiota e me apunhalou pelas costas! - eu sentia a raiva diluindo junto com o efeito do álcool. Senti o cheiro de merda e precisava dar um jeito nisso.
- Nós não estamos mais juntos! Entenda isso!
- Eu que preciso que você entenda!
- Entender o que?
- Que você é ainda a minha tetéia, que eu fiz tudo isso por amor!
- E existe amor em fúria?
- Por você existe! - as pessoas que me seguravam deixaram-me em paz enquanto levavam o babaca que bati para longe.
- Essa foi a pior cagada que você já fez!
- Desculpe se eu te assustei, com certeza você nunca me viu assim.
- E não queria ter visto.
- É que vodka e raiva é uma mistura muito ruim. Eu me descontrolei. Eu errei.
- Só isso não basta! - ela disse e eu não sabia o que fazer. O que diabos ela queria de mim para voltar?
- Quer saber? Eu até que me diverti socando esse bosta.
- Foda-se! Some da minha vida!
- Eu sei que não mereço mais nada de você. O meu rancor foi maior do que eu então não tive saída.
- Não quero saber! Alguém tira esse cara daqui.
- Ahhh! Quem sabe um dia você não vai me agradecer?
- Agradecer? Agradecer por você ter socado meu amigo na balada?
- Amigo? Há! Eu ainda vou pagar pra ver no que isso vai dar.
- Segurança! Segurança! Tirem esse puto daqui.
- Esqueça. Não precisa, eu vou embora. Foi ruim eu sei, mas já passou. Ficar com você foi bom, mas eu estava bêbado, louco, chapado e agora acabou.
Eu ainda sentia seu olhar fixo às minhas costas enquanto eu caminhava para a saída. Alguns caras me olhavam assustados, outros riam de toda a situação. Pra mim nada valia. Minha fúria tinha sido suavizada e falei o que precisava pra acabar com tudo isso.
Sem qualquer tipo de dúvida, pontos finais são realmente uma merda.
¹ -Texto inspiradíssimo na música Amor em Fúria da excelente banda nacional Vivendo do Ócio
Dan Barish escolheu às 12:13 AM Comments:
Terça-feira, Fevereiro 03, 2009
Vezes.
Às vezes as borboletas tomam meu estômago sem razão aparente, como se a moldura onde elas estão presas sumisse e elas pudessem voar livres, como um dia foram, sem se preocupar com meus ácidos gástricos, com as feridas causadas pelo excesso de Coca-Cola e Whopper´s, como se a vida fosse só isso: voar entre um alimento em digestão e outro.
Às vezes minha visão embaça, perde o foco, como se houvesse lágrimas chegando ao limite, olhando para baixo decidindo colocar ou não um fim em suas vidas; como se minha alma, presa em tantos grilhões, se esticasse ao máximo para olhar pelas janelas e ter um vislumbre da vida, da liberdade, da emoção. Nesses momentos sinto que há uma confusão etérea dentro de mim, onde o sentido se perde comigo, com todos, como se algo transcendental de repente tocasse a música, movesse os longos dedos frios sobre o piano, batendo em várias teclas ao mesmo tempo num som ora furioso, ora sereno.
Às vezes tenho a impressão que alguém vem e aperta o interruptor, tirando todas as cores do que assisto sem a minha autorização, deixando-me na penumbra, no mundo preto-e-branco onde tudo tem tons de cinza. Eu, você quem lê e o cafezinho ali de cima. Nessa cena pálida procuro olhar o que deveria ter cor, o que diabos está faltando? Não me importa quem apagou. Só me importa quem pinte tudo de novo.
Às vezes tenho a sensação de que a Solidão é o nosso último suspiro antes do fim. Seja ele morte, rompimento, demissão ou qualquer outra coisa que simbolize o término de um período. O que me assusta é ter a sensação de que a Solidão está ao meu lado sempre, pronta pra ceder o ombro em momentos de agonia e outras horas preparada para me assustar, apontar para a minha cara de espanto e rir gostoso, como uma amiga de longa data faria. O que realmente me terrifica é pensar que a Solidão pode ser minha melhor amiga. Isso não assusta vocês? Acordar um dia e descobrir-se completamente só? Silêncio. Sua respiração. Seu batimento cardíaco. Um ou outro passarinho cantando lá fora, um carro passando na madrugada, um despertador distante martelando seu som. E você. Peça única num quadro, num mosaico, num quebra-cabeça onde tudo se perdeu. A vida se esvai, você suspira, aquela última lágrima se joga gritando alto o que não podemos ouvir e se espatifa em sua bochecha. Aquela sensação úmida lhe dá algo para pensar, algo para reviver, algo para sonhar. Uma maneira de conforto, de colocar a Solidão para longe e sentir-se acompanhado pelas memórias, lembranças, erros e escolhas feitas na vida. Até que alguém lhe fecha as pálpebras e aí é só você novamente por toda a eternidade. Só.
Às vezes tenho a impressão que tudo irá acabar num piscar de olhos; que meu mundo irá ruir no meu próximo passo, que não haverá apoio ou mãos para segurar, apenas a queda, o abismo do desenho animado que levanta uma nuvenzinha de poeira e deixa um contorno na pedra. Apogeu e declínio. Ascensão e queda. Início e fim emaranhados numa constante inconseqüente que liga um ao outro ao infinito. E nada além.
Às vezes acredito que seja só isso. Amor, algumas amizades, outras conquistas profissionais, um ou dois bons livros pra se ter na cabeceira e uma par de discos pra tocar em alguns eventos. Talvez um bom gole de Coca pra encharcar uma borboleta e a garganta seca.
Às vezes eu alço os olhos aos céus e escuto risadas embebidas em sarcasmo, do mais fino tipo, como se tudo isso realmente fizesse parte de algo maior, algo incompreensível e que deixamos de querer compreender há muito tempo; como se por trás do cenário de algodão no céu azul, nos pontos brilhantes da escuridão, olhos focassem nesses momentos onde às vezes tudo e nada são lados de uma mesma moeda girando e girando e girando.....
Às vezes eu escrevo pra não erodir. Para retirar letra por letra da angústia jungiana que assombra os literatos. Tem vez que eu leio pra me machucar, procurando interpretações subliminares em algo que deveria ser positivo, como se a dor me empurrasse novamente aos braços da felicidade. Doce e amargo, doce e amargo unidos para um realçar o sabor do outro confundindo-nos constantemente sobre qual gostamos mais. Letras doces, parágrafos amargos, frases saborosas e textos difíceis de engolir. A Literatura tempera esses momentos ocos como se esse conjunto de representações pudesse trazer algum sentido àquilo que não conseguimos sentir, trazer ou representar.
Às vezes eu penso na Vida, outras horas ela pensa em mim. Nesse vai-e-vem a gente se equilibra, dança e ri, tropeça e ri de novo. Eu queria controlá-la, mas ela escapa dos meus braços como uma dama fugaz, que sabe o fascínio que causa mas recusa a se entregar. Assim como eu.
Às vezes alguém lê esse monte de palavras acumuladas e faz um diagnóstico flácido, insalubre e insosso. Como se todo texto dissesse algo que o autor tentou esconder. Como se todo autor quisesse dizer algo. Vai saber se ele não quer que você pense nisso? Pode ser que ele tenha feito todo esse preâmbulo triste pra lhe levar ao clímax romântico. Ou não. Tem vez que eu manipulo. Outras sou manipulado. E provavelmente há muito mais manipulações nesse jogo que eu nem percebo!
Às vezes a gente só quer escrever pra poder mostrar o caminho seguro às borboletas que voam no ambiente inóspito; só pra mostrar ao nosso íntimo que o mundo continua assustador demais pra sair e que é melhor cada lágrima ficar no seu lugar, pois a bochecha, ainda que tentadora e cheia de adrenalina, pode colocar um fim em sua gotícula. Tem letra que surge só pra pintar o que foi apagado, trazendo cores novas à vida, com uma pincelada impressionista, outra surreal e algumas bem art noveau. Como não entendo nada disso apenas vivo com cada cor que posso, conheço e admiro. Outros textos surgem só pra mostrar que a Solidão é tema de inspiração. E só. Não diz mais nada.
Às vezes só a sensação de encher esta tela branca, estas linhas torpes, são o suficiente pra apaziguar o peito e diminuir a saudade, eliminar o medo, domar a ansiedade e varrer pra debaixo do tapete toda sensação ruim.
Mas há solução. Sempre:
Há vezes em que tudo isso perde o sentido: quando vejo um sorriso de quem amo, quando dou risada de um amigo dizendo ser tipo o Martinho da Vila ou colando chicletes em velhas grossas no cinema.
Quando quem eu amo se entrega a mim, permitindo que o amor seja algo enérgico, que alimente sonhos belos o suficiente para corrermos em busca do amanhã e que mostre a Solidão que nada disso pesa diante de um abraço apertado enquanto ela ri e me chama de “meu”.
Quando sinto seus braços finos me envolvendo, trazendo-me para perto enquanto seu cabelo me faz cócegas no nariz e tudo ali me dá vontade de ser pra sempre. Torço pra que tirem uma foto, pintem um quadro ou escrevam a respeito pra que um dia, quando minhas memórias forem insuficientes, eu possa sentir novamente todo esse jorro de alegria que sinto toda vez em que a tenho por perto. E não há nada que sobreponha esse sentimento: texto, bebida, passeio, nada. O mundo só faz sentido completo quando sua cabeça está sob meu peito, quando sua respiração termina no meu ouvido e você dorme em paz, mostrando-me a felicidade a despeito de todas essas vezes em que o mundo parece um lugar ruim.
O melhor de tudo é que quanto mais ficamos juntos, mais meu mundo se colore, menos borboletas voam dentro de mim, menos a Solidão me acompanha.
São essas vezes que fazem a vida valer a pena, onde o amor não tem vergonha de existir e tudo se resume em poucas palavras: sonhos, planos, futuro, felicidade constante, romance, desejo, carinho, abraço, risada.........
Ou seja, eu e você.
Juntos por infinitas outras vezes.
PS: um abraço pra sentir-se abraçada mais uma vez.
Dan Barish escolheu às 1:58 AM Comments:
Domingo, Janeiro 25, 2009
Literatura on the rocks
A Literatura me conquistou há muito tempo. A conheci numa noite só, como hoje, como ontem, como sempre e infelizmente, como amanhã. Eu estava em um bar. A mesa do canto, tradicional, já com o formato do meu traseiro na cadeira; o copo suado, com gotículas de gelo evaporado, tristeza escorrida e lágrimas que desciam sem pudor. Eu já era um mascote do bar e não me importava. Pra quê se importar? Importância era algo que já havia sido perdido. O que me restava era pensar no passado, remoê-lo constantemente, cutucando cada ferida de uma maneira masoquista, como se eu gostasse de sofrer. A verdade é que nem o álcool nem a dor preenchiam o vazio que ficou. E eu estava cansado de procurar o que colocar nas lacunas, nessas malditas covas abertas onde meu peito morto dava cada vez mais o seu último suspiro. Eu estava lá, sentado de novo, noite após noite, olhando as beldades que se debruçavam no balcão, pedindo drinks com nomes gringos e eu no bom e velho Jack Daniels. Nas primeiras noites eu ainda recebia alguns olhares curiosos, outros interessados. Dizem que há fantasias de todos os tipos e aqui devemos incluir, entre animais, objetos inanimados, as pessoas derrotadas.
Uma certa vez, uma loura platinada, Loreal, Kellaton e farmácia, seios fartos pulando do sutiã número três vezes menor do que devia, se ofereceu para me dar alegria. Sim, isso foi um eufemismo porco, mas é o que restou. Eufemismos pra falar de sexo, pra falar de dor, pra falar de perda, pra falar de mim. Eu virei um eufemismo nesse bar. Olhei nos olhos da loura e vi um reflexo – provavelmente era da lente barata, mas e daí? Vi a mim mesmo morrendo lentamente em agonia, um corpo putrefato segurando um copo, sentado rastreando o bar com um olhar perdido. Tive dó de mim. Ela beijou meu pescoço, afagou minha coxa em busca de mais e eu apenas refutei, com asco, cuspindo na escarradeira no canto do bar enquanto ela levantava gritando contra mim. Dei mais um gole, brinquei com o gelo e senti a noite esquentar, mais uma vez me lembrando que o inferno é aqui. E contrariando todas as previsões religiosas, só eu estava nele. Maldito Hades.
Mas eu falava da Literatura. Desculpem, é difícil escrever alcoolizado. Os temas se misturam, as linhas dançam diante de mim e o passado surge a cada piscada, com escárnio, refletindo as minhas escolhas erradas e diminuindo as que pareciam certas. Pra ver se eu consigo organizar as palavras tomo mais um gole. Pra refrescar a memória, o calor, a culpa. A Literatura. É verdade. Vamos falar dela pra suavizar a dor.
Eu nem a vi entrar. Estava encarando o fundo do copo, chegando a algum ápice do saber inútil, da solitude completa quando reparei que alguém havia sentado à mesa. Nas últimas vezes em que isso aconteceu eu mal levantei o olhar para ver quem era. Já tinha aberto mão da vida. Não fazia mais questão e nem questionava mais. Porém algo me chamou a atenção: ela falava francês. Não é todo dia que uma francesa gasta seu tempo falando com um bêbado qualquer. Eu tentei me lembrar das aulas na faculdade, ainda no tempo jovial, no tempo em que era tolo o suficiente pra acreditar no Amor e em suas conseqüências; no tempo em que microondas não tinha hífen e o português brasileiro tinha seu gingado próprio, com palavras sambistas e músicas ruins. Mas ela me olhava com curiosidade. Com desejo. Com um quê de loucura no ar, no sorriso lupino diante da presa ali parada, trôpega, sem vontade de viver. Ela sorria como se houvesse encontrado o reino de Preste João, a cidade de El Dorado ou a Cocanha. Eu a olhava como... como se ela se balançasse constantemente mas acredito ser efeito do Jack. Falando nisso, mais uma dose por favor. Hã? Sim, on the rocks. Rock´s! Rock and roll, álcool e Literatura. Pode por isso na minha lápide.
Foco. Desculpem. Retomando.
As palavras deixaram de se embolar na minha garganta e falei meu francês arrastado, trombando no efeito da bebida. A Literatura riu. Pode me chamar de Lit, se quiser. Eu não queria. Pra mim seria Senhora Literatura até o fim, até o momento em que ela se entediasse de mim como todas as outras antes dela; como todas as outras depois dela. Ela falava rápido, com o olhar fixo no meu para ver se eu a entendia. Eu encarava seu olhar hipnotizante, dando meus goles encarando aquele brilho. Eu ri quando finalmente consegui entender o que diabos ela propunha. C´est impossible falei. E ela levou o indicador aos lábios, meus lábios, sorrindo novamente como se eu fosse uma criança tola. Eu era apenas um bêbado falido, largado, de coração esmigalhado pela Vida. Eu era amante do copo, do álcool, do bar. Já devia estar fedendo; os amigos estavam longe; os amores perto, apenas na lembrança mas constantemente perto demais para me machucar sempre em que eu tentava sonhar, caído, babando e com o gosto de bile na boca. E ela disse que faria tudo isso sumir. Ela disse que era possível mudar. Veja o Obama, por exemplo. Ela era visionária, vanguardista, sensual. Ou eu estava bêbado, já não recordo mais; mas apostaria na última alternativa. Adiante. Ela me conquistou obviamente. Suas palavras fáceis, vastas, cultas; suas promessas de trazê-la de volta, de preencher os vazios, ressuscitar os mortos, curar as feridas. Ela era meu Messias. Naquela noite amarga, inóspita, quase fundei uma religião, mas não havia fé. Havia fel, mas misturei na bebida e tomei de um gole só. Estou pronto, falei. Ela me mandou fechar os olhos. Fechei. Afinal, eu sempre confio em uma mulher bonita, ainda mais estando bêbado.
Quando eu os abri, ela não estava mais lá.
O bar inteiro olhava pra mim, com aquele teor de pena carregado em seus olhares. Escutei murmúrios soprando que o perdedor havia atingido à loucura, falando sozinho, gritando e bebendo de novo.
Levantei-me aos berros. Onde ela está? ONDE ELA ESTÁ? O Jack Daniels disse pra eu continuar andando, pedi mais uma dose bem-grata, tomei e fui atrás dela.
Naquele dia não a encontrei. Voltei ao bar, bebi mais, bebi mais, bebi mais um pouco, bebi até apagar, até o copo soltar da minha mão comemorando sua liberdade de minha opressão, sentindo minha baba descer lentamente pelo canto da boca enquanto meus olhos lentamente perdiam o foco.
Quando acordei ela estava ao meu lado. Falou que me encontrou no bar, em um estado lastimável e que cuidaria de mim. Acariciando meu rosto, beijou a minha testa e me mostrou um mundo onde era possível tudo. Até eleger o Obama. Disse que se não houvesse felicidade, que eu a escrevesse; que se a dor fosse crônica, eu ficasse apenas com a crônica. Disse que se houvesse vazios, eu os enchesse de letras, palavras, frases perdidas para trazer o que se foi. Ela me mostrou algo pra acreditar. Ela me deu aquilo que eu havia perdido há tempos. Vida. Mais do que isso, vontade de viver. Eu pedi um whisky, uma vodka, mas ela me deu livros para ler e páginas em branco para desafogar os pensamentos. Obviamente me apaixonei por tudo. Por ela, por essa chance, por esse resgate. Por ter me salvado de mim mesmo.
Foram anos felizes.
Ilusórios, mas felizes. Como o amor, com letra minúscula mesmo – é, a Lit me ensinou as diferenças.
E como toda mulher linda, ela recuperou meu coração, colou caco por caco, me mostrou, atiçou a minha vontade e o despedaçou enquanto eu olhava. Os fragmentos caíram em câmera lenta, entre seus dedos pintados de vermelho, entre minhas gotas de sangue, entre a minha vida.
Agora eu voltei ao bar. Mais uma dose por favor, está difícil chegar no final. Obrigado. Eu podia odiá-la, mas ela me deu uma companhia para as noites de solitude. Agora eu não sou o bêbado perdedor, abandonado, só. Evoluí. Viva Darwin, evoluí. Ainda sem ser o mais forte. Mas agora eu sou apontado como o escritor bêbado abandonado, o cara do caderninho amarrotado. Estou melhorando na escala social. Ela me ensinou a criar personagens pra enganar solidão; me ensinou a transformar o amargor em frases amargas, tirando-o de mim e jogando no seu universo; ela me ensinou a regurgitar a felicidade em letras para que os outros a conheçam enquanto eu apenas tenho saudade. Ela me salvou ao mesmo tempo em que me condenava a isso para sempre, como se escrever fosse trazer meu coração de volta. Obrigado Lit.
Eu até podia culpá-la, mas fui eu, apenas eu, quem escolhi acreditar. E infelizmente, é tudo uma questão de escolha.
PS: e viva 2009.
Dan Barish escolheu às 4:24 AM Comments:
Domingo, Dezembro 14, 2008
Minhas Melhores Amantes
De todas as amantes que tive, de todas as mulheres que partilhei o colchão e o lençol, de todas as deusas que vi e tive o privilégio de fazer sorrir, não tenho dúvidas que a Literatura figura como a mais ciumenta. A Solidão é versátil, liberal, fogosa e libidinosa. Nem lembro mais quantas noites varei em um ménage a trois selvagem envolvendo estas duas fontes de prazer de minha vida. Embora tenha sido penoso convencer a Lit - apelido carinhoso - ela se rendeu aos encantos naturais da Sol - outro apelido carinhoso - e desafiamos os céus, o tempo e a razão ao nos entregar a carícias íntimas, toques inspiradores e momentos de arrancar o fôlego. Inúmeras foram as noites que acordei suado, buscando o escasso ar que me fora sugado enquanto elas respiravam em paz ao meu lado, permitindo que eu encontrasse o melhor de mim, calmo e vendo o quão prazerosa a vida é, pode e deve ser.
A Solidão é a única exceção que a Lit permite. Talvez por nós termos crescidos juntos, vendo as mudanças físicas e espirituais de cada um, haja este convívio pacífico. Agora quando escapo desse mundo surreal e tenho contatos palpáveis, carnais e deliciosamente alegres, ambas se retiram de cena. A Sol se esconde, tira suas merecidas férias em algum país europeu - sua terra de origem - e parece me esquecer. Ocasionalmente manda um cartão-postal fazendo questão de demonstrar o quanto está feliz e que não sente a minha falta, esperando, do seu íntimo, que isto seja recíproco. A Solidão entende que quando minha cama está preenchida por alguém diferente, não há espaço para ela. Mesmo assim ainda sorri, pega sua mala e se entrega à outros contextos. Ahhh, quem me dera se a Lit fosse assim tão compreensível! Eu ficaria menos preocupado com esta grande amiga se ela fosse igualmente tolerante e não exigisse tanto de mim. Ela, assim como a Sol, sabe do tamanho do meu amor por elas; o problema é que ela não aceita dividir sua parcela com mais ninguém. Ninguém. Basta eu chegar em casa com um sorriso bobo estampado no rosto que ela já bate os armários, a porta do quarto e se tranca no escuro, comovida em lágrimas, em silêncio, como se minha felicidade a fizesse algum mal. A Sol simplesmente pergunta o que aconteceu e já começa a fazer as malas. Ela nunca leva muita coisa, pois sabe que sua volta é breve, quando o espaço da minha cama voltar a ser grande demais só para mim. Mas a Lit, minha pobre Lit, se recusa a aceitar; grita quando eu bato à porta, tentando me explicar. A Sol vai consolá-la e já escutei diversas vezes, entre um soluço e outro, ela dizer com a voz embargada: “Mas e se agora for para sempre? E se ele tiver encontrado a sua metade? E se ele não... precisar mais de mim?”, geralmente esta última parte é dita já em tom de choro, com lágrimas incontidas escorrendo sem culpa, sem pressa, sem querer. A Lit é romântica. Minhas desculpas não são aceitas, sequer são escutadas. A carranca expressa na face da Lit é como a de um amigo traído, que viu a amizade esfacelar em um estalar de dedos, recusando-se a ver a alegria alheia, ao amor que surge, imaturo, com dente de leite, precisando de proteção. Para a Literatura é inaceitável que outra pessoa escute minhas lamurias, minhas aflições, meus medos. Ela é minha psicóloga registrada, com horário sempre disponível. E na primeira oportunidade, eu a abandono.
Pode soar egoísmo, eu sei. Estou ciente da minha culpa. A Lit sempre esteve com a mão estendida, pronta pra me tirar de qualquer poço a qualquer momento. Até mesmo quando a Solidão discutia comigo, a Lit apartava a briga, me dava colo e fazia cafuné, dando início a uma relação que sem dúvida culminaria em um orgasmo literário de grande intensidade. A Lit me amou quando me senti desprezado, quando minhas escolhas demonstraram ser erradas – como a maioria deste ano -, quando até a Solidão enjoou de mim. A Literatura sempre esteve presente, fazendo-me desabar e desabafar entre seus espaços brancos, suas linhas retas, permitindo-me molhá-la com minha tinta e deixar marcas para sempre, tatuagens infinitas de textos, palavras e frases que o tempo teve que engolir a seco. Aposto que você está se perguntando: como alguém pode abandonar tal amizade? Dói meu peito deixar de lado tamanho apoio, mas há uma razão. A Lit me dá paz por um preço alto: ela exige tanto de minha atenção que não resta nada, nem para mim. Fico em paz e só. Não há alegria, felicidade, romance, nada. A Lit as expulsa com o rolo de macarrão, e no máximo, se não estiver de TPM, permite um abraço efusivo da Solidão. Mas olhando no relógio pra ver quanto tempo dura...
A pergunta que lhe atormenta agora, caro leitor, é a que também me aflige: vale a pena sacrificar todo esse apoio para correr riscos de sentir coisas diferentes, inclusive sensações ruins? É uma escolha árdua. Durante meses escolhi a Lit, afinal, ela não me traía, estava sempre por perto, fácil, sem dor de cabeça e fiel. Algumas vezes surpreendentemente romântica, outras mais sensuais, de arrancar a roupa com o dente e me jogar na cama. Era bom. As noites voavam, o coração se recuperava...mas aí seu primo chato, o Tédio, veio para uma visita e não quis mais sair. Eu tentei, gritei, tentei de novo mas não houve jeito. Disse, portanto, após tantas reclamações: se ele não sai, saio eu. Bati a porta e corri.
E foi justamente nessa caminhada com rumo ignorado que resolvi adotar uma nova estratégia: ir atrás daquelas sensações imersas na lembrança, aparentemente tão boas, e colocar um fim no marasmo feito de cotidiano. Pensei, e julgo-me com razão, que amigo de verdade tem que saber perdoar, especialmente loucuras que envolvem o coração. Nem preciso dizer o quanto este último ficou contente com a possibilidade de uma nova aventura enquanto eu torcia para minhas amantes me entenderem.
Bom, nem preciso dizer como foi a reação da Lit ao atender a campainha, e ver pelo olho mágico, o meu sorriso bobo característico desses momentos fugazes. Ela nem se preocupou em abrir a porta, quem abriu foi a Solidão, já com as malas em mãos, rumo a mais um descanso merecido. Entrei na casa e escutei, detrás da porta trancada, os soluços indignados da Lit, murmurando palavras entrecortadas: “Como ele fez isso comigo, como?”
Eu deixei um buquê de flores com um cartão agradecendo o apoio dado neste ano turbulento, os prazeres ofegantes em conjunto e a paz de cada problema. Coloquei mais um bilhetinho escrito: “Lit e Sol, amo vocês, Feliz Ano Novo!” na geladeira, preso com um imã de solzinho.
E fui embora, com o sorriso bobo ainda perdurando, saborear 2009.
Vejo vocês lá.
PS: =)
Dan Barish escolheu às 1:39 AM Comments:
Sábado, Novembro 15, 2008
Natal 2.0
Não há dúvidas que o capitalismo e o mundo globalizado de cunho ocidental aceleraram a nossa concepção socioeconômica de tempo. As horas valem cada vez menos e passam cada vez mais rápido. Antigamente anos duravam décadas e agora o próprio conceito "ano" está meio desacreditado no mercado temporal. Ele mal inicia e logo vem o Carnaval, a Páscoa, as Festas Juninas, as Férias Julinas, o dia dos Pais, o das Crianças, o Natal e tudo recomeça. Pior ainda: tais festividades começam cada vez mais cedo. E é engraçado que enquanto o calendário perde seu significado de longa duração, os feriados e seus respectivos símbolos permanecem intocados por essa erosão acelerada. Ainda que a Globeleza não sambe mais para chamar-nos a atenção do Carnaval, os demais símbolos festivos parecem sobreviver intactos nesse avanço moderno e faminto do tempo. Os santos de Junho permanecem iguais, as Mães, os Pais, as Crianças... todos recebem o mesmo enfoque. Eles apenas chegam mais rápido, só isso.
Após esta introdução, aliada ao fato que me irrita profundamente mal chegarmos em novembro e já encarar a cidade repleta de enfeites de Natal, resolvi propor uma revitalização do Natal. E para isso, ataco o cerne da festividade, a imagem perpetuada desde a nossa infância. Proponho a análise e reformulação do bom velhinho, do Papai Noel à luz da sociedade contemporânea.
Provavelmente ao ler as duas palavras - Papai Noel - automaticamente seu cérebro evocou a imagem daquele velhinho clássico da Coca-Cola e seu significado. Roupas vermelhas, barba comprida e branca, Pólo Norte, barrigão, duendes como assistentes, cartas e mais cartas, trenós, um saco de brinquedos e renas com nomes esquisitos. Os mais pervertidos podem ter lembrado também da Mamãe Noel, com sua sainha vermelha curta. Ou não. Enfim, tal imagem reflete um ideário da sociedade capitalista de teor norte-americano profundamente enraizado no mundo. Contudo, com uma análise crítica, é possível perceber que essa imagem perdeu completamente o sentido nos dias atuais. Até a famigerada (e deliciosa) Coca-Cola tem apostado mais no urso polar do que no bom velhinho. E como ele não tempo pra ter dois empregos, vamos ajudá-lo e evitar gastos com a Previdência.
Este kit natalino vermelho-branco-barba-gordura está fora de moda. A onda agora é contra o sedentarismo e o Papai Noel é uma figura que evoca o sedentarismo, afinal, ele passa o ano todo sentado, lendo cartas, mandando nos duendes e comendo o biscoito da Mamãe Noel. A barba cresce, a barriga também, ele resmunga mais, os duendes se estressam com a pressão, a Mamãe Noel não agüenta mais assar biscoito e ele literalmente passa o ano só coçando o saco. Vamos mudar isso! Agora o velhinho tem que ser ativo e sim, aqui se inclui sacanagens de todos os tipos. O bom velhinho, logo de início, deve começar a tomar viagra com dois objetivos: agradar a patroa Noel e perder calorias. Isso vai refletir diretamente no seu bom-humor, deixando o ambiente de trabalho mais descontraído e aumentando a produtividade dos duendes. Num segundo momento, o velhinho irá perceber que com aquela barriga, fica difícil amanteigar o biscoito da Mamãe Noel e vai malhar, cuidar da aparência, aparar a barba e se tornar um velhinho sexy estilo o Sean Connery.
Posterior a essa embelezação, é necessário rever toda a logística do Natal. Cartas escritas por crianças que dizem ser boazinhas? Nada disso! Não se pode confiar nos correios - sempre há a ameaça de greve -, papel elimina árvores e o custo de cada selo e envelope pode ser revertido para uma ONG! Multipliquem o custo envolvido nisso por cada criança no mundo? É grana para caralh*. Inclusive eu sugiro a Ong Escritores Pobretões, a qual eu dirijo e garanto a honestidade. Mas deixando de lado a ONG, é necessário informatizar o Natal. Estamos na era da tecnologia 3G, Wi-Fi, Videoconferência e tantos outros recursos. Está na hora de montarmos a primeira central de atendimento exclusiva do Natal, disponível o ano todo e vinte quatro horas. Terceirizada, é óbvio. Assim pagaremos salários mais baixos do que os pagos atualmente aos duendes e aumentaremos a eficiência. Imagine que ótimo você ligar no 0800-2512 e ouvir:
“Hohoho. Bem-Vindo a Central de Atendimento Natalina. Sua ligação é muito importante para nós.
Aperte 1 para ditar sua cartinha ao Papai Noel.
2 para reclamar do seu presente de anos anteriores
3 para saber os nomes das renas;
4 para informar perda ou roubo do seu presente.
5 para falar com nossos duendes. "
Aí você aperta qualquer opção e vem a pergunta fatídica:
“Mas você foi uma boa criança?
Aperte 1 para sim;
2 para não, mas quero ganhar presente porr*! (um piii, na verdade)
3 para sim, só que não de acordo com a opinião dos meus pais;
4 para não, mas mereço um presente pela sinceridade.
5 para saber o nome das renas;
6 para saber a receita do biscoito amanteigado da Mamãe Noel
7 para falar com um de nossos duendes
8 para falar com o Papai Noel".
Você inocentemente aperta a opção sete e fica escutando Jingle Bells durante minutos intermináveis até que você ouve: “Hohoho. Nossos duendes estão todos ocupados nesse momento, ligue mais tarde!" . Pior ainda. A criança, empolgada, vai e aperta a opção oito, esperando falar com o velhinho e ele responde: "O Papai Noel não pode lhe atender agora hohoho. Afinal, alguém tem que mandar nesses duendes inúteis, certo criançada?"
E o stress infantil vai lááááá para cima.
Outra prática que deve ser revista e será atenuada após a revitalização sexual do bom velhinho, é a famosa e criminosa frase dita por Papais Noéis de Shopping: "Senta aqui no colinho do velhinho que eu te dou um pirulito". Se essa frase fosse dita em Neverland, por exemplo, pronto, é batata, lá vai o Michael responder mais e mais processos. Agora processar o bom velhinho ninguém tem coragem. Anos e anos realizando propostas duvidosas e indecentes a milhares de crianças inocentes e ninguém faz nada. Pior: tem pai, sádico, que ainda fotografa o momento para aterrorizar ainda mais a criança pelo resto da vida. Ao menos foi que disse o meu amigo Victor Hugo. Tsc tsc tsc.
Devemos também repensar a relação trabalhista com os duendes. Há anos eles trabalham com fabricação de brinquedos diversificados sem receber férias ou décimo terceiro. Para evitar qualquer processo por um duende insatisfeito e qualquer aumento de custo da empresa natalina, devemos substituir o vínculo empregatício por contratos de estágio. Simples. A relação de exploração escravista permanece e não há mais espaço legal para qualquer reclamação trabalhista! Sem contar que os duendes nunca crescem, ou seja, podem fazer estágio para sempre!
Existem outros pontos a serem abordados - por que não um Papai Noel latino-americano, lo Papito Noel? - ou a possível publicação da edição de dezembro da Playboy ser estampada por ninguém mais, ninguém menos que a Mamãe Noel na capa, mas devemos deixar isso de lado e pensar no melhor de tudo, principalmente aos desafetos do Natal como eu. Todo esse estereótipo natalino está prestes a acabar graças ao aquecimento global! Lembrem que as calotas polares estão derretendo e já foi dito nos bastidores do governo Lula que caso o bom velinho sobreviva, ele se mudará ao Brasil para trabalhar como funcionário público, mandando tudo às favas logo no início de dezembro e emendando as festividades com janeiro e fevereiro. Só será possível encontrá-lo no desfile das escolas de samba, em cima do carro elétrico só de gorro e sunga, sambando com seus duendes que empurram o carro elétrico, enquanto ele olha admirado, Mamãe Noel como porta-bandeira da escola em questão. Então meus caros leitores, será o fim do Natal.
E o início do Grande Carnaval.
PS: sim, eu antecipei o texto já que anteciparam as decorações !
Dan Barish escolheu às 9:15 PM Comments:
Sábado, Novembro 08, 2008
Eu, A Dançarina do Ventre e as crianças.
Eu ainda não estava acostumado com esta quantidade de barulho em meu apartamento. Durante muito tempo ele foi o meu lugar de repouso, de silêncio, aquele momento para sentir-se só e encontrar-se mais. Fiquei segurando as chaves por alguns minutos, escutando do lado de fora a batalha que parecia ser travada lá dentro. Alguns nomes comuns ao meu ouvido podiam ser reconhecidos, sendo clamados com raiva. Desfrutei mais um pouco da paz que o corredor oferecia antes de entrar no meu apartamento, neste templo sagrado que finalmente descobriu e me ensinou o sentido da palavra lar.
Coloquei a chave na fechadura, click, e o som lá dentro automaticamente cessou. Alguns risinhos baixos ainda eram perceptíveis e aquela vozinha frágil amoleceu meu coração de mármore, perguntando suavemente com medo de não estragar a surpresa:
- É o papai? - perguntou meu filho.
- Lógico. Você acha que o entregador de pizza tem as chaves? - respondeu prontamente Sophia demonstrando o quão forte é a genética.
- Shhhhh - sussurrou a voz que me acompanhava há anos. Eu podia até imaginar parte da cena. Sophia e Júlio escondidos em algum lugar e ela, linda, colocando os dedos nos lábios para simbolizar o silêncio. Provavelmente com os cabelos loiros ondulados caindo pelos ombros, o piercing de argola no nariz e uma vontade louca de sair dali, de longe dos filhos, para encontrar um pouco de sossego na ponta de um cigarro enquanto eu cuidava das crianças.
Abri a porta fingindo não saber de nada e ensaiando uma resposta ao possível "buuuh" que fariam para me assustar. Não tive tempo de acordar deste fingimento quando fui acertado na cara por uma almofada. Em cheio. Só escutei o Yes! da Sophia e vi um vislumbre de seus cabelos louros se escondendo atrás do sofá, deixando apenas os olhos castanho-escuros contrastando com a pele duplamente branca. Eu já conseguia ler seu semblante pelo seu olhar e sabia que ela estava radiante, exalando o bom humor ácido que tinha.
- Vem mamãe, se esconde comigo. - falou Sophia por trás do sofá; a Dançarina do Ventre a acompanhou rindo descaradamente da minha face surpresa.
Senti um puxão na perna esquerda e quando olhei Júlio olhava com aquela carinha de pidão.
- Papai, papai. Meninos contra meninas! É nós contra elas!!!
- Somos nós Júlio.
- Foi o que eu disse. - e correu para trás da poltrona para pegar uma almofada. Eu o segui e gritei:
- Só não vale acertar a Scarlet - esse era o nome da nossa TV - nem o Tucídides - esse era o cachorro que de rabo entre as pernas olhava com uma cara suspeita para seus donos.
A guerra começou desleal com a dupla feminina atirando seus projéteis por cima. O bombardeio foi intenso e instintivamente cobri o pequeno Júlio com o corpo. Ele achou graça e me empurrou dizendo: “Sai de cima papai" e disparou atrás da irmã, munido de uma almofada maior que ele. Era engraçado vê-lo caminhar segurando a almofada e eles se encontraram perto dos pufes, se rodeando para ver quem escapava do outro. Aproveitei este momento de impasse para beijar minha esposa. Foi justamente neste breve momento que o choro de Júlio cortou a batalha, meu coração e a atenção e Sophia gritou declarando-se vencedora da guerra. Ponto para as meninas. A Dançarina do Ventre foi até lá, abraçou Júlio e sinalizou com o olhar para que eu repreendesse Sophia - uma tarefa praticamente impossível. Como brigar com aquela mini-adulta com cara de anjo? Olhei para o rosto vermelho de Júlio e encontrei as forças necessárias:
- Soph, você está proibida de comprar livros esse mês! - anunciei seu castigo tentando segurar o riso; obtive sucesso.
- Ah pai que injusto! Se eu não ler nada esse mês não vou ficar inteligente e você vai se lembrar disso quando eu entregar o boleto da minha faculdade! - disse sorrindo. Era duro ouvir isso de uma criança de oito anos, mas as coisas estão mais rápidas hoje em dia do que na minha época.
- Então peça desculpas!
- Eu não tenho culpa se o Júlio é fraquinho.
- Fraquinho não! Papai disse que eu sou estreito, que nem ele! - falou entre uma lágrima e outra.
- É, ele não tem culpa de ter herdado a disposição física do pai. Dê graças a Deus por ter puxado sua mãe Soph.
Ela riu e desculpou-se. Mas mesmo assim estava satisfeita com a vitória conquistada.
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Chegou a hora de colocá-los para dormir e era a minha vez. Enquanto a Dançarina do Ventre arrumava a nossa cama, fui até o quarto das crianças iniciar o ritual.
- Pai, conte-nos uma história para dormir? - pediu Júlio.
- Só não vale falar de novo da Cocanha!
- Nem de quando você apresentou seu seminário de terno-e-gravata, eu não agüento mais!
- Conta uma história nova - falou Sophia.
- Alguma sugestão? - perguntei
- Conte-nos sobre como você e a mamãe se conheceram.
- Isso, isso! - confirmou Júlio em seu pijama cheio de hieróglifos egípcios.
- Ok. Uma vez fui a um barzinho com os amigos da faculdade.
- Como chamava?
- Os meus amigos?
- Nãããão, pai. O barzinho.
- Pra quê você quer saber filha? Você não tem idade para ir lá e quando tiver eu vou te amarrar no pé da mesa! - Júlio riu gostoso, mesmo sem entender direito.
- Fala logo!
- Grão-Vizir. Era aniversário do Marcelo e ele escolheu o ambiente. A temática do lugar era toda inspirada no Oriente Médio, árabe sabe? Cheio de comidas diferentes, música típica e tudo mais. O lugar era meio mal-iluminado de propósito, pra criar um clima legal. Conversa vai, kibe cru vem, o tempo passa e o anfitrião pediu silêncio pois...
- O que é anfitrião? - perguntou Júlio - Se tiver algo semelhante ao agrião eu não vou gostar papai.
- Anfitrião é quem organiza e recepciona as pessoas numa festa, por exemplo. Entendeu?
- Yep!
- Ok. Voltando. No silêncio que surgiu escutamos o chacoalhar de alguns badulaques e todos procuraram a origem dos sons. Lembrem que o barzinho estava escuro. De repente várias garotas lindas entraram, trajando véus e roupas árabes e iniciaram uma apresentação de dança do ventre. Os homens babavam. Logo começaram a comentar baixinho enquanto eu não conseguia tirar os olhos de uma loirinha com dois piercings no umbigo e uma tatuagem de borboleta. Eu estava hipnotizado pela dança. Meus amigos me cutucavam mas eu não percebia. Eu queria decifrar seu olhar, seu sorriso, chamar sua atenção de algum modo. Aí eu resolvi... Ahhh, vocês já dormiram - murmurei baixinho enquanto cobria cada um com cobertores e beijos na testa. - Amo vocês. - e saí do quarto, apagando a luz. Encostei a porta e fui caminhando ao quarto sendo afogado por memórias que me levaram até aqui. Como se o passado me empurrasse ao presente, abri a porta do quarto e sorri com o que eu vi, pois o futuro era bom.
- Ouvi você contando nossa história para as crianças e achei que você gostaria de relembrar os velhos tempos. - falou a Dançarina do Ventre sorrindo. Ainda que ela gerou dois filhos, continuava estonteante. A pele branquinha, a tatuagem que me levava à loucura, o corpo pequeno e tentador. Ela estava com os trajes usados no passado onde se apresentava por amor à dança e agora dançava para fazermos amor. Tudo isso parecia sonho, ficção ou literatura e tal impressão só dissipou-se quando, já na ação, escutei a frase que me trouxe a realidade, dita entre uma respiração cortada e ofegante:
- Cuidado para não acordar as crianças.
PS: a série continua, mas com coisas diferentes!
Dan Barish escolheu às 1:45 AM Comments:
Sábado, Novembro 01, 2008
Identidade.
É estranho começar a pensar num debate historiográfico corriqueiro enquanto espero a sorte me sorrir trazendo meu ônibus, nessa fria madrugada em plena Rua Augusta. Emos, indies, rockabillys, alternativos, prostitutas, travestis, pessoas pseudo-descoladas e deslocadas passam por mim sem me perceber, sem sequer dedicar um ou dois segundos ao ser parado no ponto que dança ouvindo Adele. Pudera, estou camuflado. Ainda que de maneira mais discreta, há possibilidades que alguém me confunda com um deles. Meu cabelo está bagunçado, meio Strokes; a camiseta é do Pulp Fiction, com a Uma Thurman estampada; no pé, o all star vermelho e o rock´n roll alto no ouvido. The Young Knives toca seu ritmo dançante, substituindo a suavidade da Adele e eu me balanço conforme a melodia. É justamente aqui onde eu deveria estar, subindo a rua atrás de uma balada pois meus gostos se encaixam; e eu me pergunto: será? O debate mencionado acima se refere à questão da identidade versus alteridade. Um lance interessante das ciências humana: só é possível afirmar uma identidade quando esta é confrontada com outra, surgindo as semelhanças e divergências que a delimitam como elemento ou conjunto de identificação perante um grupo ou classe social. Será este mundo das baladas alternativas, do rock dançante com sotaque britânico suficiente pra me ressuscitar?
Beldades desfilam, o vento frio assopra e a solidão me abraça. Olho cada loira linda, vestida para provocar com trajes curtos e sapatos altos, ouço o Rocknova cantar dizendo que é muito mais fácil fingir a dor do que a alegria - eu concordo plenamente. Será que ao se jogar nesse mundo escuro de luzes que piscam, no álcool fácil e drogas sortidas, além da promiscuidade resultante desta equação, vou encontrar o lugar onde vou poder fingir a alegria com facilidade, como todos fazem? Será que ao permitir meus tímpanos serem martelados pelo som novo do Kaiser Chiefs em intensos decibéis, ao entorpecer minha mente com algo químico mais perigoso que Fanta Uva, vou conseguir deixar de ouvir as vozes que me acusam e as lembranças que gritam agoniadas? Será que preciso mergulhar nessa loucura transviada da juventude moderna pra substituir, ou melhor, preencher as lacunas que sobraram em mim? Será que nesse embate de identidades eu descubro onde me encaixo? Devo me inebriar em algo que não seja um perfume feminino ou em uma cama quente noite adentro sem medir conseqüências? Será isso a solução ou mais problemas?
Engraçado que olho para todas as pessoas que passam enquanto procuro respostas para as perguntas que ainda virão, vendo fantasmas do amanhã e buscando fragmentos essenciais para eu voltar a olhar no espelho sem ver um sorriso de escárnio no reflexo. Sem culpa, arrependimento ou remorso. Voltar a olhar e sorrir, sabendo que eu vou encontrar tudo o que eu preciso, sabendo que tudo passou e eu me reencontrei. Sabendo que você definitivamente se foi...
Essa vida boêmia regada à baladas e sem limites está longe de ser algo para me resgatar ou um simulacro do que perdi. Sei que é possível esquecer de tudo, deixar de se preocupar, procurar ou sofrer enquanto se entrega à diversão descompromissada e inconseqüente. Simplesmente fechar os olhos, dançar, fumar, beber, cair e levantar com uma puta dor de cabeça no dia seguinte e os problemas no mesmo lugar. A solidão ainda acenando, o passado rindo e o futuro cada vez mais longe. Meus dias e noites são preciosos demais para eu fingir que estou vivendo intensamente ao viver assim. Estupidamente. Desculpem-me os baladeiros de plantão, mas há muito mais na vida do que as noites fátuas que se apagam e precisam ser renovadas cada vez mais rápido. Cada vez mais forte. Cada vez mais, mais, mais mais e quando se vê, o abismo é grande demais pra construir qualquer ponte que traga de volta. Minha identidade até pode se confundir com os rockers de plástico que transitam nessa rua nefasta e meu coração palpita por uma ou outra loira linda que passa, afinal, todos nós temos fraquezas. Mas definitivamente não sou um deles. Não vejo nem sinto prazer em se perder a cada noite com amigos e estranhos que não estarão presentes no amanhã, quando precisar - salvo os que freqüentarem a mesma clínica de reabilitação.
Desculpem a simplicidade, a chatice e a velhice precoce, mas meu prazer se encontra nas risadas altas e alheias causadas em vocês quando eu falo minhas besteiras e divirto-lhes, seja no trem, no ônibus, no meio da aula, em qualquer momento ou lugar; meu prazer se encontra na admiração refletida em olhos quando alguém lê um texto meu; num jantar com os amigos, na leitura de um bom livro noite adentro, num copo de Coca-cola ou de Schwepps Citrus com limão, num Whopper Duplo do Burguer King, na loucura de jogar jogo da velha com um bêbado filósofo no ônibus, na cama com uma mulher insana, na História, na Literatura, na dança casual no ponto de ônibus, na música constante e na calmaria dos meus aposentos. Tenho os meus vícios, minhas loucuras comedidas e tantas histórias pra contar sem me destruir. Memórias para lembrar, amores para viver, sonhos para conquistar, mulheres para se apaixonar, o futuro todo pra desafiar e para alegria – ou será tristeza? - de vocês, textos a escrever.
PS: sim, eu ganhei do bêbado!
Dan Barish escolheu às 2:24 AM Comments:
Terça-feira, Outubro 28, 2008
O Historiador
Poucas pessoas sabem mas os historiadores, seja proto, pré, pós, doutor ou vendedor de dog, são recatados. A própria academia - este termo em si já é tosco - o transforma em um ser intelectualmente desenvolvido, mas impedido por regras medievais de exercer este intelecto em outros campos da cultura. O mais triste é que o inverso é válido, estimulado e comercializado. Se um historiador resolver fazer a história da Física Quântica, os físicos o execrarão, pois ele não entende do assunto; os historiadores, seus próprios colegas de academia, vão torcer o nariz, pois é uma história fora da História, com agá maiúsculo. Agora, se um jornalista resolve escrever um livro falando dos cem anos da chegada da Família Real no Brasil, ele faz sucesso, seu livro vende que nem água de coco em show de axé, ele é idolatrado por conseguir transformar a história chata e burocrática em algo fácil de ser lido; os historiadores torcem o nariz ao escutar o nome da obra, mas no fundo no fundo, sentem inveja, em graus diferentes de intensidade, do sucesso alcançado. Os historiadores representam uma classe intelectual amargurada e amada somente pelos livros, um ou outro aluno puxa-saco e a bibliotecária. Nada mais.
O historiador nunca vai ser famoso. Ele não possui aptidão social, pois é criado pra ler e ler milhares de livros e criticá-los. Só criticar. Não é convidado para as festinhas das socialites no Rio de Janeiro já que vai meter o pau na organização, no vestido, nos salgadinhos e vai suspirar clamando pelo tempo dos bailes de Dona Maria, a louca, pois lá podia tudo. O historiador só é convidado a escrever para um jornal, comentando uma obra ou um filme, quando não acharam mais ninguém disposto a tempo. O historiador, reclinado em sua poltrona, cercado de livros que ele leu pelo puro prazer de criticar, anseia por uma ligação da editora X, Y ou Z, pedindo um comentário, pedindo a opinião para publicar naquela revista muito interessante. O telefone toca. Ele atende. Se identifica. Cita os títulos, os pós-doutorados feitos na França, diz estar à disposição e quando escuta o tema da matéria, ri e se recusa a comentar, com um tom ofendido. Como se aquele tema fosse superficial demais para que ele cedesse gotas do seu saber ilustrado, afinal foram anos de pesquisa sobre a importância das maçanetas na corte de Luís III. O jornalista desliga, entra no Wikipedia, publica a revista, sai pro happy hour com os amigos e mesmo assim tem milhares de leitores. O historiador desliga, liga para outro historiador, comenta a questão da revista e ambos dão risadinhas curtas, encerrando logo a ligação, pois têm muito que ler.
Outra vontade reprimida do historiador é algo proibido no próprio Evangelho. Pecaminoso. Eles ensinam isto logo no primeiro momento que você pisa na academia. Se pudessem tatuar em sua testa tatuariam. O tal do anacronismo. É, o termo é meio estranho. O conceito até que é bem sacado: você não pode pensar o passado com idéias do presente. Exemplo corriqueiro, se você disser em um corredor do Departamento de História: "Alexandre, o Grande era gay!"... Pronto, anacronismo! O alarme toca, a KGB aparece e te leva para uma sala escura - e o que acontece lá, senhoras e senhores, não sabemos pois ninguém voltou para contar. Portanto nunca, em hipótese alguma, pense no passado com conceitos atuais. E pior ainda, nunca, mas nunca, nem sequer permita que esse pensamento passe por sua mente, evite como um cristão radical evita o sexo promíscuo e divertido e gostoso, nunca pergunte “E se...?” ! É praticamente o código para explodir o prédio, colocarem fogo no lixo, as bundas enrugadas na janela e iniciarem a revolução. Há relatos de estudantes de história desaparecidos em todas as universidades do Brasil afora, e até na França, que se aventuraram a perguntar. Quer causar um silêncio constrangedor na sala de aula? Simples. Levante a mão e pergunte com a maior cara-de-pau: “Professor, o que aconteceria se Eva fosse lésbica e não gostasse da serpente?” . Você vai escutar a tensão gerada, os murmúrios de reprovação e o fulminar dos olhares.
O problema é que tudo que é proibido é mais gostoso. Duplamente. Esta tentação anacrônica é uma diversão do historiador e que geralmente aparece na mesa do bar, após uma ou duas louras geladas, vivas e com colarinho. Nesse momento livre da repressão pseudo-intelectual, livre das amarras acadêmicas, o historiador permite que a criatividade pulule de alegria e passa a inventar teorias, sugerir situações hipotéticas e absurdas e ainda é capaz de defender suas idéias com argumentos e fontes de diversas categorias! O anacronismo é a êxtase do historiador. É a superação dos obstáculos. É o momento em que ele pode usar sua inteligência, seu senso crítico pra criar um mundo que deixou de existir devido a um fato, uma decisão ou um conjunto de fatores que implicaram no mundo como conhecemos hoje. O literato pode criar um mundo de fantasia, o químico pode mergulhar no mundo real das micro células e o estudante de Educação Física pode pensar no seu futuro como vendedor ambulante na 25 de Março, mas somente o historiador pode imaginar um mundo inexistente com sabor real; somente o historiador tem o preparo e a capacidade para desenvolver todas as implicações possíveis caso César tivesse matado Brutus, Cabral descesse na América do Norte ou Dom Pedro gritasse “Independência é o caralho!” . Esse mundo fantasioso prima por uma sustentação real. Conforme a rodada de bebida avança, essa sustentação se torna surreal, mas o historiador não liga. Ele quer se divertir pela primeira vez fora da vida acadêmica. Ele fala besteira, enrola a língua, dá risada, critica o amigo e todos mergulham nessa viagem proibida, sem culpa e sem pressa.
No outro dia, após a ressaca, se você encontrar o historiador e falar: "Ótimo paralelo você fez ontem no bar, caso Stálin fosse chinês!” , ele irá retorcer o nariz e negar até a morte que falou qualquer coisa sobre esse assunto. Encoste uma faca com ponta quente em seu olho, ameace sua família e ele ainda irá negar. “Anacronismo? Moi? Nunca meu bem, nunca! Eu tenho classe.”
Mas no fundo no fundo, ele está se regojizando por ter tido sua idéia bem-aceita.
E não vê a hora que a revista bem interessante chegue com sua seção favorita: “E se...?”
PS: não percam, próximo texto: “E se eu tivesse casado com a Dançarina do Ventre”?
Dan Barish escolheu às 10:29 PM Comments:
Domingo, Outubro 12, 2008
Um vício, uma despedida.
Engraçado é que existem várias maneiras de uma pessoa acabar se entregando a um vício. Talvez engraçado não seja uma boa palavra para descrever tudo isso, mas vocês hão de convir que é, no mínimo, irônico. Grande parte dos viciados hoje em dia chegou ao ponto de não viver mais sem alimentar seu vício por alguma coisa simples que os empurrou em direção a esta avalanche de coisas ilícitas, vontades tenebrosas, desejos inconseqüentes e diversão. Analisemos as possibilidades:
a) "Experimenta!". Acontece, na maioria das vezes, em uma rodinha de amigos, com alto teor de "masculinidade" e ofensas pessoais envolvendo frouxidão, dúvidas quanto à sexualidade etc. Toma-se um gole com cara amarga, traga-se um cigarro e a fumaça sai na tosse, na garganta queimada, na cara satisfeita provando a si mesmo para todos os acusadores. O problema é quando isso se torna um hábito e o indivíduo é testado várias vezes, aumentando o grau de intensidade a cada gole, a cada saída, a cada balada e quando se menos vê, o experimenta vira cotidiano, vira dia-a-dia e quando se menos vê, vira necessidade. Provavelmente os amigos, aqueles que o empurraram para isso, nem fumam mais, casaram, têm filhos e trabalham todo dia engravatados....
b) Curiosidade: Você está em casa, sozinho. Seus pais foram viajar. Você sempre escutou seus amigos comentarem como era divertido tomar um porre, que fumar um cigarrinho da alegria deixava tudo mais divertido e coisas do gênero. Aí você aproveita a solidão, o momento onde ninguém vê, e toma todas que precisa. Geralmente nada extraordinário. Aproveita a embriaguez só. Joga a fumaça pelos cômodos da casa e depois se lembra de abrir a janela pra não ter cheiro de fumaça quando alguém chegar. Dificilmente isso vira um vício a não ser que seus pais viajem com freqüência ou você more sozinho. Aí, a cada oportunidade, traga-se mais um caneco e quando se menos vê, a solidão vira sinônimo de necessidade e a cada momento só, a garrafa, o cigarro, o pôquer on-line, seja lá qual for o seu, vira vício.
c) Esse é o mais comum: pé-na-bunda. Tudo estava bem. Você tinha a vida que todos queriam ter. Casa, carro, trabalho bem-remunerado, uma pessoa perfeita que lhe acompanhava. De repente, por uma idiotice sua ou dela ou de ambos, ela se vai. E aí, ainda que no começo você finja a todos que está tudo bem, surge uma necessidade de preencher o vazio, de apaziguar a ansiedade, de colocar um fim nessa saudade estúpida. Toma-se um gole pra afogar as mágoas; acende-se um cigarro pra iluminar as trevas; aposta-se todo o dinheiro, pois nada mais importa. Conforme o tamanho do amor que se foi, maior as chances desta tentativa vã de substituí-lo virar um vício desgarrado. Quando se menos vê, o álcool vira o melhor amigo, o cigarro é importante a cada hora e a jogatina faz parte da graça do fim de semana.
d) Charme. É um pouco difícil explicar esta maneira já que envolve a coisa que deixa o ser humano em seu ápice de estupidez, ainda que ele não perceba. Quando alguém quer chamar a atenção de outra pessoa, vale tudo, até fingir algo ou tentar mudar um traço de si mesmo. Exemplo: você quer conquistar alguém que trabalha com você e fuma. Você odeia cigarro. O cheiro lhe embrulha o estômago. Mas sabe que os momentos em que ela sai para fumar são os poucos momentos em que você consegue tranqüilidade para conversar. Logo, você passa a fumar. Ela se surpreende com esse lado seu e você já sabe várias marcas de cigarro para se exibir. Até treina soltar círculos de fumaça e outras formas. O tempo passa, vocês até se relacionam, ela se vai, o vício fica e você morre de câncer no pulmão. Mas até que valeu a pena.
Acredito que existam outras maneiras de se viciar em algo. Eu confesso que o meu vício é meio que um misto das opções C e D. Eu queria conquistar uma menina no colégio, então passei a escrever poesias. Obviamente eram toscas. Graças a Deus não as tenho mais. Enfim. Entreguei as poesias e levei um fora. Mas o vício da escrita já estava inserido então passei a escrever poemas sempre que queria conquistar uma garota. Isso explica a longa série de foras que tomei no colegial. Até que uma louca gostou e começamos a namorar. Quando levei o pé-na-bunda, comecei a escrever pra desabafar. Algo meio diarinho. Com a ferida fechada os textos foram tomando formas diferentes e nem percebi ao ter a necessidade compulsiva de escrever. A poesia fora abandonada mas os textos tinham formas peculiares e eu gostei. Recebi alguns elogios, outras críticas e continuei. Já são vários e vários anos de escrita, de inspirações súbitas, escrevendo no ônibus, no metrô, no trabalho, na USP, em diversos lugares. Quando a inspiração não vem tenho crises de abstinência como qualquer outro viciado. Sinto vontade de escrever. Eu preciso disso. Preciso da minha dose, preciso calar minha alma, satisfazer meu vício. E ter paz.
A questão aqui é que todo vício tem sua conseqüência. Famílias são arruinadas, dinheiro se vai etc. O meu é simples: quando eu escrevo sobre algo que sinto, tal sentimento tende a diminuir e algumas vezes até a desaparecer. É impressionante. Meu talento em transformar palavras em belos arranjos tem um preço alto e uma vantagem. Quando sofro, escrevo. O tempo lê e passa. Alivia. O problema é quando sinto algo bom e escrevo. O tempo lê, ri e me sacaneia. Quando eu menos vejo, passa. Simplesmente se esvai, acaba, puft. Se você olhar a cronologia dos textos aqui publicados, vai ver que fiquei um bom tempo sem escrever pois quis conservar a felicidade comigo. Deu certo. Mas quando tive dúvidas sobre o que senti, e resolvi escrever, minha maldição veio à tona e tudo se perdeu. Eu fiz escolhas, escrevi sobre elas e elas acabaram comigo. Hoje só tenho a solidão, a saudade e uma vontade enorme de voltar no tempo pra tentar me convencer a fazer tudo diferente. E como não quero mais sentir tudo isso, decidi escrever sobre. Pra ver se some. Pra ver se me deixa em paz e desocupa o meu coração pra outra inquilina ocupar.
E para isso acontecer decidi me envolver em outro projeto. Vou usar essa maldição ao meu favor e que o tempo decida. Não estranhem se esse local ficar meio às moscas, se faltar textos etc. Mas eu preciso seguir adiante e vou sacrificar tudo o que for preciso pra deixar tudo para trás.
As escolhas vão se tornar uma ótima lembrança.
PS: Dan Barish is now chasing pavements even if that leads nowhere....!
Dan Barish escolheu às 12:44 AM Comments:
Terça-feira, Setembro 30, 2008
Naked
Há sangue em minhas mãos enluvadas. Fresco. Algumas gotas caem no chão acumulando poças grossas e vermelhas; algumas gotas respingam no meu corpo e me mancham de uma maneira inesquecível. O som delas caindo no chão é poético, pingando lentamente e se aglomerando, se aglutinando, sendo o que não posso ser. Minhas mãos ficam cada vez mais pegajosas e eu não tenho muita certeza de quem é todo este conjunto de hemácias, plaquetas e leucócitos. Poucos feixes de luz entram pelo local deixando-me ainda mais na penumbra que vivo. Vejo reflexos no chão em cacos de mim espalhados por aí, fragmentado em mil, em mim, em todos nós. As gotas pingam ainda num ritmo mais adagio. Eu continuo hipnotizado pelo som, por esta valsa lenta e monofônica que embala minha mente e acalma meu peito. Como em uma dança, circulo levemente e livremente pelo quarto, desfrutando mais uma vez da sensação de paz que a morte traz. Abro as cortinas e deixo a luz entrar, iluminando tudo o que temos a esconder, cada demônio, cada monstro, cada parte de nossa podridão varrida para debaixo do tapete. Brado alto com o fôlego de meus pulmões, um urro de satisfação e prazer, tão comum para o lugar onde estou. Minha mão deixa marcas em todo o lugar, nas paredes, nas cortinas, fazendo com que o quarto se torne uma caverna rupestre. Provavelmente eu teria que pagar este caos se fosse passar no caixa. Respiro. Finalmente respiro, sentindo o bombardeio do coração diminuir, a excitação passar e o júbilo acalmar. Olho o relógio. Ligo a TV, ligo o som, o chuveiro, a banheira e deixo a cacofonia invadir tudo enquanto gargalho na cama, rolando de um lado para o outro sem pressa. O único canal disponível é perverso e emite seus clichês. O tempo se joga para frente e o telefone toca. Uma vez. Eu dou risada. Duas vezes. Eu rio mais alto. Três vezes. Sorrio. Quatro vezes e então estico a mão e atendo, no meio daqueles gemidos altos oriundos da TV. A moça avisa, tentando parecer a coisa mais natural do mundo que "a hora do casal está acabando" - ela mal sabe que acabou faz tempo, mas os urros da TV a ludibriam. Eu digo alegremente, entre um barulho e outro da TV, fazendo chiados, que ficarei mais. Ela agradece a preferência. Eu desligo, olho a bagunça ao meu redor. Visto-me, deixo minha caixinha de presente dentro de uma gaveta que será vasculhada. Minha parceira era meio fã de coisas novas, então nem ligou quando levou umas palmadas de luvas. Ainda bem. É hora de ir.
A noite foi boa para mim. Acho que minha companheira não concorda. Talvez seja pela humilhação que ela irá passar quando abrirem o quarto e a encontrarem nua, com sangue por todo lado e a garganta cortada.
Pensando bem, isso não importa pra quem morreu, certo?
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- Outra?
- Sim. O modus operandi é diferente mas deve ser o mesmo cara.
- Aqui? Não é a cara de nosso rapaz.
- Ele é versátil, você deveria saber disso.
- O que eu não sei é como as garotas saem com esse p*to. Há sinais de estupro?
- Não, não.
- Então essa vadia deu de bom grado!
- Sim... como elas não conseguem identificar um assassino?
- Se fosse fácil você não teria emprego. Graças a Deus estas pessoas morrem pois assim você garante o sustento dos seus filhos.
- Que horror!
- C´est la vie..
- Cesta o quê?
- Nada. Algo de novo?
- Sim.. .há marcas de mão por todo o quarto, cacos de vidro no chão, poças de sangue. Nosso rapaz estava nervoso. Nunca vi ele cortar uma garganta antes.
- Isso explica a quantidade de sangue. Nossa equipe forense conseguiu algo das marcas de sangue?
- Tá achando que isso aqui é o que? CSI? Dexter? A Scotland Yard? O máximo que eles conseguiram foi descobrir que a jovem foi morta logo após o coito.
- Ahhh. Nosso rapaz deu uma trepadinha então!
- Que linguajar mais chulo inspetora!
- Eu sabia que ele não ia resistir. Ninguém agüenta ficar muito tempo sem.
- Eu consigo inspetora.
- Isso porquê você é um cristão tolo e ainda não experimentou. Quando descobrir como é bom....
- Ai Jesus! Cala-te mulher! Nós conseguimos uma gravação telefônica, mas o equipamento deste recinto é ruim.
- Nossa que barulheira! Só é possível ouvir os gemidos de fundo. Provavelmente ela estava viva esta hora. Nenhuma gravação em vídeo?
- Você acha que essa espelunca, no centro de Suzano, vai ter câmera funcionando? Aposto que essa água da banheira não é trocada há anos.
- Você está soando experiente em motéis, soldado.
- Não tenho culpa se é só isso que os policiais falam. E eu não sou soldado.
- Haja banho frio hein!
- Nem me fale....
- Inspetora Brito! Achamos algo e parece que é para você.
A inspetora caminhou até o policial e pegou a caixinha de presente, com o cartão escrito com sangue: "P/ Gabi. Com carinho." Ela riu, xingou-o de filho-da-p*ta, chocando os demais policiais que ainda não a conheciam bem. Quando ela abriu a caixa, encontrou um mp4, desses vagabundos comprados em qualquer lugar. :
- Esse p*to acha que é quem? O Jigsaw? Que merda - e apertou o play. Não havia mensagens com vozes distorcidas, propostas de jogos mortais ou uma voz dizendo que ela havia sete dias de vida. Simplesmente um rock´n roll começou e a inspetora, possessa, jogou o mp4 na parede, deixando apenas uma frase ecoar no ar:
"I like you so much better when you´re naked..."
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I like me so much better when you´re naked... - tocava no meu celular enquanto eu caminhava rumo à estação de trem. Eu sei que foi arriscado. Eu sei q ue deveria ter resistido. Eu sei que toda aquela bagunça não faz meu estilo, mas é preciso confundi-los um pouco. Eles vão ouvir Ida Mara até dizerem chega e a música dela vai se popularizar um pouco. Mas a verdade é que eu não resisti. Imagine a cara deles quando descobrirem que as mãos de sangue foram feitas com uma mão de manequim molhada em sangue de porco! Vai ser hilário! Fiz tudo isso por uma razão. Se a morte é o que inspira minha vida devo lembrar que cada morte é cúmplice do amor. E quando olhei na TV a inspetora que havia voltado de Londres, após um caso enorme de sucesso na Scotland Yard, onde capturara um serial killer de imigrantes ilegais, eu senti aquela adrenalina de novo, aquele tremor nas mãos, aquela vontade de largar tudo, ser impulsivo, ser aquele que eu matei e enterrei anos atrás sob tantas camadas de frieza, sarcasmo e sanguinolência. Talvez fossem efeitos especiais da TV, mas quando ela, no meio da conferência televisiva, falou sem qualquer censura "que ia pegar esse p*to de merda a qualquer custo", eu senti meus olhos brilharem. Finalmente uma adversária à altura. Finalmente alguém que tentasse impor ordem ao caos, que reconhecesse essas mortes literárias e reais. Finalmente alguém que valesse a pena matar por, morrer por e correr todos os riscos. Finalmente alguém que me completa e tenta me entender ainda que por vias tortas. Mas Deus não escreve certo por linhas tortuosas?
Ela precisa me achar e me entender. Enquanto isso eu continuo me procurando, resgatando cada pedaço de mim doado àquelas que não valorizaram. Para eu me achar, outras devem morrer. Que pena não? C´est la vie.
Uns morrem, outros matam e eu me divirto.
PS: yeah, he is back!
Dan Barish escolheu às 12:40 AM Comments:
Domingo, Setembro 21, 2008
Sinos
Cinco da tarde. O relógio da igreja no complexo da São Bento bate seus sinos repetidamente, irritando alguns com seu barulho rotineiro e soando como liberdade para mim. Há mais de três anos este tem sido meu alarme, meu gongo salvador que permite desligar-me, temporariamente, dos problemas e tarefas pendentes do trabalho. Ainda que raras vezes saio neste horário, não tenho dúvidas do quanto o sino e todo este centro fétido e histórico, traz-me memórias, me inunda de lembranças, faz-me sentir o amargor de algumas derrotas, o pesar de outras escolhas e o doce sabor das vitórias. Meses atrás, quando eu saísse pela porta automática, seria recebido por um sorriso impagável e um abraço quente. Talvez dali direto para um cinema para deixar o escurinho apimentado ou uma companhia durante a espera pelo ônibus ou simplesmente tacar-se fogo a dois num quarto ou em uma sala qualquer. Anos atrás, seria apenas um momento de fuga, de ida para a faculdade sem grandes significados. Talvez um jantar com os amigos num rodízio de sushi ou um Chocoturbo com as amigas e em ambos os casos deixar-se afogar nas risadas, besteiras ou conversas com alto teor sexual - não recomendado para menores ou virgens. Independente do lugar para onde ia após as fatídicas badaladas, não posso esquecer o quanto este lugar é importante para mim. Algumas pessoas encaram seus locais de trabalho apenas como um local que dá trabalho; cada vez mais as pessoas, visando os cifrões, se entregam às rotinas que as fazem infelizes ou estressadas. Não eu. O meu trabalho me faz rir, chorar, amar e odiar; faz-me sentir humano e ser um; faz-me desenvolver características que anos atrás, ao aguardar em fila para entrar pela primeira vez por estas portas automáticas, sequer passavam por minha mente. Meu trabalho proporcionou momentos que fazem parte de mim e conheci pessoas que me ajudaram a construir quem hoje sou. São três anos de lições e aprendizados, escutando os sinos a cada hora, seja de entretenimento, amor, trabalho ou ódio, mas são os três anos que me moldaram.
E é com pesar que saio ao som dos sinos sabendo que não voltarei da mesma maneira. Hoje digo adeus, sem saber o que o futuro me aguarda, além de um borrão completo. Aceno para os amigos, sorrio para os inimigos e anoto telefones dos amores. A vida me empurrou para outro lugar, mais uma vez de surpresa e apenas deixo-me ir enquanto uma parte de mim fica, como agradecimento, por tudo que aprendi e conquistei neste período, por cada lágrima e gargalhada, por cada pessoa descoberta, por tudo. Não ouvirei mais os sinos na saída, não comprarei mais bugigangas na hora do almoço e não respirarei amores antigos nestes corredores. Uma parte da minha história se encerra e minha barriga congela ao pensar nas aventuras do próximo capítulo. Se serei mocinho, vilão ou príncipe encantado, só o tempo dirá; talvez o final seja feliz, talvez não, mas sem dúvida os capítulos vividos até aqui tiveram a alegria como roteirista principal. Foram inúmeros dias, diversos obstáculos, coisas impossíveis que se tornaram possíveis num piscar de olhos, milhares de copos descartáveis com café, risadas incontáveis, lágrimas escondidas e algumas visíveis, segredos e aprendizados. Eu olho para este prédio cinza, quadradão, para as recepcionistas mal-humoradas e os seguranças do mês, e me dá um aperto desgraçado. Eu juro que havia prometido ficar só um ano quando aceitei o trabalho e já estou rumo ao quarto. Cada vez melhor. Cada vez maior. As responsabilidades se acumulam e o mundo se expande, cada vez mais mágico, um pouco trágico e nada letárgico. Vivi coisas inesquecíveis, conheci pessoas impossíveis e levo tudo isso comigo. Meu coração bate forte e sorri triste pensando na despedida, pensando no novo amanhã, pensando que as coisas nunca mais serão como são agora pois tudo mudou. Tudo. O cenário, as pessoas, o roteiro, o cachê, tudo. É uma nova temporada e eu nem vi quando a outra acabou. Todas as conquistas feitas neste período agora são meros troféus ou lembranças de derrotas distribuídas na estante, na minha estante e na sua estante. Algumas pessoas me viram sempre aqui e outras agora podem perceber que já fui. Pra onde? Para o desconhecido, para onde o frio aumenta na barriga, o suor desce gélido e tudo pode mudar. Um lugar repleto de conquistas a serem feitas, uma América toda para ser descoberta cheia de riscos e emoções, cheia de aventuras e desventuras, com várias oportunidades de felicidade e com várias escolhas a serem feitas.
É impossível voltar. Completamente. Hoje tenho o amadurecimento suficiente para olhar para trás, olhar o ano de 2005, ver mês a mês, dia a dia, escolha por escolha e ter noção completa de que fiz o meu melhor, até aqui. Revejo cada segundo, cada noite, cada dormida no ônibus, na aula e cada amizade feita, cada inimizada colhida, cada beijo roubado, cada hot dog comido e percebo que tudo isso, em cada singelo detalhe, em cada peça de um imenso mosaico, foi se fechando e se completando até formar esse quadro que olho agora, com sua moldura ao som de sinos, olho a pessoa que se formou e sorrio satisfeito. Confesso que queria algumas coisas diferentes nesse exato momento, mas o resultado final está sensacional. Quantos não olharam para o garoto que adentrou estas portas e não reconhecem o homem que sai agora? Minha face ainda pode transparecer adolescência mas minhas atitudes confirmam o adulto que vos escreve - ainda que com um pé atolado na subversão pueril dos jovens, e com prazer. As sensações que me passam agora são confusas, se chocam, se driblam e brigam e beijam e se arrastam e voam de uma maneira que não sei descrever. Como uma esquadrilha de borboletas, com cores, formas, asas diferentes mas ainda assim formando algo único. Eu queria um amor que não tenho mas acabei ganhando tantas outras coisas e uma oportunidade de encontrá-lo num lugar novo; ou melhor, deixar que este amor me encontre pois a máxima "quem procura, acha" está completamente desgastada pelo tempo. Quem não procura é encontrado e é exatamente o que eu vou fazer. Brindo à vida, aos amigos, ao tempo, aos amores e às risadas por ter me dado tudo o que levo comigo. Brindo aos sinos que me acompanharam até aqui e deixo um pedaço do meu coração num quadro pra que todos possam ver, acreditar e escolher. Porque não importa o que aconteça é tudo uma questão de escolha. Eu fiz as minhas. E acertei a maioria.
Futuro, lá vou eu.
Boa sorte pra quem fica.
PS: mas ainda assim odeio despedidas.
Dan Barish escolheu às 11:31 PM Comments:
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